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O Duende de Ferne-Den

Abril 24, 2008 por contadores.destorias

O Duende de Ferne-Den

Num certo vale da Escócia, vivia um duende. O duende não tinha nada de especial. Falava-se muito dele, como se fala de todos os duendes, mas poucos podiam gabar-se de o ter visto. Dizia-se que era enfezado – apenas cinco ou seis vezes maior do que um diabrete – e que estava todo coberto de pêlos. Tinha uma cor esverdeada, os olhos salientes, rodeados de círculos vermelhos, os pés planos e espalmados, e braços muito compridos, que iam até ao chão. Alguns diziam que se alimentava de sangue, outros diziam que bebia o leite directamente das cabras, das vacas e dos jumentos, com os quais falava. Diziam também que só saia pela calada da noite. Mas quem era suficientemente louco para se arriscar a passar por uma ravina profunda, em plena noite, só para ver um duende? As pessoas daquele lugar estavam tão aterrorizadas que, quando a noite caía, preferiam percorrer distâncias maiores do que atravessar o vale.

Apenas uma velhinha, que morava numa aldeia, dizia que o duende era inofensivo. Ia ao ponto de afirmar que, quando colocava uma malga de leite no estábulo, na cocheira ou no celeiro, encontrava, de manhã, os cavalos ferrados, o trigo malhado, o feno recolhido e a lenha cortada. Todos lhe diziam que um dia acordaria com a garganta cortada!

Acontece que, uma noite, a velhinha foi acometida de convulsões e de suores. Para cúmulo do azar, a única mulher que saberia tratá-la morava do outro lado do vale. Quem teria coragem para ir chamá-la? Os homens, as mulheres e as crianças tinham todos tanto medo que ali estavam, em redor da velhinha, sentados ou de pé, sem se mexerem e sem proferirem palavra. Teriam, aliás, morrido de terror e de angústia, caso soubessem que o duende estava bem perto deles e que os espreitava pela janela. Tinha vindo beber o leite. Ao encontrar a taça vazia, tinha-se aproximado da casa. Com os braços descaídos, enrolado sobre si mesmo, murmurava entre dentes:

— Que pessoas mais estranhas! Acham-se assim tão apetitosas para terem medo de que eu os coma? Ruína e calamidade! Esta pobre mulher ainda acaba por morrer…

O duende tomou uma decisão e, sem barulho nem tremor, foi até à cavalariça. Pôs uma capa sobre os ombros, selou um velho jumento e sussurrou-lhe tais palavras ao ouvido que o animal desatou a galopar como nunca havia feito, mesmo quando era um jovem poldro.

Chegaram muito depressa ao outro lado do vale. A curandeira dormia profundamente e o duende teve de bater várias vezes nas portadas até que ela acordasse. A mulher resmungou, queixou-se do desarranjo e gritou, escandalizada, quando viu que não lhe tinham mandado nem carruagem nem carroça.

— Nem tivemos tempo de a atrelar — disse o duende. — Temos de nos despachar! Sente-se atrás de mim na sela. Vai ver que ocupo pouco espaço e que sou um bom cavaleiro.

Falou com tal autoridade – dir-se-ia mesmo um grande senhor – que a curandeira parou de resmungar. Foi-se vestir e subiu prontamente para a sela. Partiram num galope desenfreado e só voltaram a falar quando atravessaram o famoso vale de Ferne-Den.

A mulher estremeceu e gaguejou:

— Não prefere ir por um desvio? Não gosto muito deste lugar. Se encontrássemos o…o senhor sabe do que falo…

— Por favor, pare de se agitar e de dizer asneiras. Prometo-lhe que esta noite não verá homenzinho mais horrível do que aquele com o qual cavalga neste momento.

— Fico então descansada — suspirou a mulher. — Ainda não o vi, mas o senhor deve ser um cavalheiro, para se preocupar assim com uma velhinha.

Quando chegaram, por fim, o duende apressou-se a ajudar a curandeira a descer da montada, que suava deveras. Mas, quando colocou a mulher no chão, a capa deslizou-lhe das costas. Ao ver a silhueta através das sombras da lua, a mulher exclamou:

— Que homem estranho sois! Os vossos olhos, a vossa tez, os vossos braços, os vossos pés …

— É verdade que caminhei tanto que tenho os pés defeituosos, que me escaparam tantas coisas que os meus braços se alongaram, que vi tantas cores que a bílis verde me veio à boca, e que os olhos acabarão por me saltar das órbitas um dia.

Debruçando-se sobre a mulher estupefacta, acrescentou:

— Despache-se! Vá socorrer a pobre velha. Se lhe perguntarem como chegou até aqui, diga que, à falta de verdadeiros homens, mulheres e crianças, teve de se contentar com um ignóbil duende. Neste mundo malvado, não podemos ser todos altos, loiros, brancos e elegantes.

E dito isto, desapareceu e nunca mais ninguém o viu.

Jean-Jacques Fdida
La naissance de la nuit et autres contes du monde entier
Paris, Didier Jeunesse, 2006
tradução e adaptação

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