Os Dedos Malvados
Um leopardo, que era implacavelmente perseguido por um bando de caçadores, apareceu, um dia, na cabana de um camponês. Extremamente aflito, pediu-lhe:
— Salva-me! Peço-te, suplico-te! Juro que nunca mais tocarei nos teus bois!
O camponês, aterrorizado com a presença do animal, prometeu aos deuses que não diria palavra. Depois, levantou a tampa de uma arca e o leopardo enfiou-se dentro dela. Quando os caçadores chegaram, começaram a fazer perguntas ao camponês. Este não queria voltar atrás com a palavra dada, mas apontava para a arca e dizia, sem cessar:
— Não vi nada! Digo e repito que não vi nada!
Entretanto, dentro da arca, o leopardo observava a cena, através de duas tábuas de madeira. Com o coração negro de pesar, observava o estratagema ignóbil do camponês que, interrogado asperamente pelos caçadores, intrigados pelas suas gesticulações, se esfalfava a protestar que nada sabia, ao mesmo tempo que apontava como um doido para a arca e lhes queria dar a entender, através de mil caretas, que o leopardo estava lá dentro. Tanto fez que os caçadores acabaram por o considerar louco e foram-se embora, decepcionados.
Quando, por fim, o camponês abriu a arca, disse ao leopardo, numa voz doce:
— Prestei-te um excelente serviço. Sem a minha ajuda, estavas feito! Espero que mantenhas a tua promessa de deixar os meus bois em paz, tal como eu mantive a minha de não te denunciar.
O leopardo retorquiu:
— Manterei a minha promessa, tal como mantiveste a tua. Pude observar que tinhas bonitas palavras, mas dedos malvados.
E, como tinha prometido não comer nenhum boi, o leopardo devorou o homem.
Jean-Jacques Fdida
La naissance de la nuit et autres contes du monde entier
Paris, Didier Jeunesse, 2006
tradução e adaptação