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A Dama da Lua

Maio 7, 2008 por contadores.destorias

A Dama da Lua

Três irmãzinhas espiavam pela janela do apartamento da avó. No céu, flutuavam nuvens escuras. Na rua, grossos pingos de chuva dançavam nas copas dos guarda-chuvas. Não tinham nada que fazer!
– Bem podia parar de chover! – suspirou Maggie. Era a mais velha e custava-lhe muito estar quieta.
– Bom era se a gente se pudesse molhar! – disse Lily, que observava um garotinho passar de bicicleta pelas poças da chuva.
June, a mais novinha, bafejou sobre o vidro e depois desenhou uma cara na mancha húmida. Virou-se para a avó e disse:
– Nai-nai, a gente bem podia ter alguma coisa com que se entreter!!
– Tantos desejos numa tarde de chuva! – exclamou Nai-nai. E, vendo as carinhas das netas, puxou-as para perto de si. – Sei o que é desejar que o dia esteja mais quente, mais fresco, mais soalheiro, ou mais nublado. Já fui criança um dia. E ainda me lembro do tempo em que também corria e gritava, em que não conseguia estar quieta.
– A avó gritava? – admirou-se Maggie de olhos arregalados. Nai-nai deu uma gargalhada.
– Pensas que eu não sei gritar? Pois gritava, e gritei ainda mais alto no dia em que contei à Dama da Lua o meu desejo secreto.
– Quem é a Dama da Lua? – perguntou Lily.
– O que é um desejo secreto? – perguntou June.
– Tantas perguntas! – exclamou Nai-nai. – Venham sentar-se aqui, que eu respondo; vou contar uma história da minha infância na China. É a minha lembrança mais antiga.

Há muito, muito tempo, quando completei sete anos, o Festival da Lua calhou num dia de Outono em que fazia muito calor. Quando acordei naquela manhã, o décimo quinto dia da oitava lua, a esteira de palha que forrava a minha cama estava pegajosa. Os raios de sol pareciam facas a atravessar as cortinas de bambu. E não demorou nada, o calor começou a aquecer o meu travesseiro, a fazer cócegas na minha nuca, e a espalhar o mau cheiro do meu potinho: acordei incomodada e rabugenta.
– Amah! – gritei. – Está muito calor!
A minha ama-de-leite dormia num catre no mesmo quarto que eu. Ergueu-me nos braços e tirou-me da cama. Mas, naquele dia, em vez de escolher a túnica leve de algodão e as calças largas que eu sempre usava, Amah trouxe uma roupa mais quente.
– É demasiado quente! – protestei, enquanto Amah vestia a túnica nova por cima da minha roupa interior de algodão.
– Não adianta reclamar – disse Amah. – A tua mãe mandou fazer essas roupas novas para usares no Festival da Lua.
A túnica e as calças de seda amarela tinham orlas pretas e flores bordadas nas mangas e nas barras das calças. Amarelo e preto: as cores de um tigre. Porque era isso que eu era: uma menina nascida no ano do tigre, um tigre com um lado luminoso e outro sombrio, temperamento arrebatado e pés ligeiros.
Perguntei a Amah se podia usar as pantufas de tigre que não já serviam ao meu irmão.
– Se te portares bem, podes – respondeu.
E continuou a entrançar fios de seda nos meus cabelos, para depois enroscar as duas tranças, uma de cada lado da cabeça. De repente, ouvi vozes no pátio e fingi que caía do banquinho para poder espreitar pela janela.– Ying-Ying, está quieta! – ralhou Amah, que me puxou para trás antes que eu pudesse ver alguma coisa.
– Quem é que está ali? – perguntei.
– Da jya: a família inteira – respondeu Amah. – O teu pai alugou um barco enorme. De tarde, vamos ao lago Tai. E, hoje à noite, vais ver a Dama da Lua… se te portares bem.
– A Dama da Lua! A Dama da Lua! – repeti, aos pulos.
Depois, puxei pela manga de Amah e perguntei:
– Quem é a Dama da Lua?
– A senhora Chang-o – respondeu Amah. – Ela mora na lua. Hoje é o único dia em que a gente pode vê-la e realizar um desejo secreto.
Imaginei uma senhora vestida de sombras, sentada na lua, de onde se debruçava para me procurar.
– O que é um desejo secreto? – perguntei.
Amah explicou:
– É o que quiseres, mas não podes pedi-lo.
– Por que é que não posso pedi-lo?
Amah precisou de se esforçar para encontrar uma resposta.
– Se o pedires, deixa de ser desejo e passa a ser vontade egoísta – disse por fim.
– Então, como é que a Dama da Lua vai descobrir o meu desejo?
Amah riu-se.
– Podes contá-lo a Chang-o, porque ela não é uma pessoa comum.
– Bom, então vou dizer-lhe que não quero usar mais estas roupas.
– Ih! Mas então eu não acabei de explicar? – disse Amah. – Agora que já mo contaste, o teu desejo deixou de ser secreto.
Naquela manhã, ninguém parecia ter pressa de ir para o lago, só eu. A mãe e as senhoras mais velhas nunca mais acabavam de tomar chá.
Conversavam sobre dores e achaques, sobre ervas e unguentos para aliviar os pés inchados. O pai e os meus tios declamavam poemas, admiravam os quadros nas paredes, paravam para escutar o grilo cantar na gaiola.
Eu suspirava e tornava a suspirar, cheia de impaciência para ir ao lago, mas ninguém reparava em mim. Finalmente, Amah entrou na sala e deu-me um bolinho da lua em forma de coelho. Disse que eu podia ir para o pátio comer o bolinho com as minhas primas, Meizinha e Meizinha Pequenina.
É fácil esquecer um barco quando se tem um bolinho da lua na mão. Saímos as três a correr pelo portão redondo como a lua cheia, que abria para o pátio. Discutimos e gritámos para ver quem chegava primeiro ao banco. Como eu era a mais velha, sentei-me na sombra, onde a laje de pedra estava fria. As primas sentaram-se ao sol e ficaram a olhar para mim e para o bolinho da lua em forma de coelho.
Ah, bem desejei comer o bolo todo sozinha! Mas, nesse momento, reconheci o meu egoísmo. Então, parti uma orelha do coelho para cada uma. Claro que não fui muito generosa, porque as orelhas eram de massa pura, não tinham recheio de doce de feijão nem de gemas. Mas as primas eram muito pequenas para saberem disso. Comi o corpo roliço do coelho, revirando a língua para lamber o recheio cremoso. E depois de comermos até à última migalha, as primas foram-se embora e deixaram-me sem nada com que me entreter.
De repente, vi uma libélula de corpo escarlate e asas transparentes. De um salto, desci do banco e corri para alcançá-la, pulei e estiquei os braços para o alto e, ao vê-la voar para longe, desejei poder voar também.
– Ying-Ying! – ouvi Amah chamar em tom de censura. Vinha a sair pela porta da lua, em companhia da minha mãe e das minhas tias. – Vê só o que fizeste às tuas roupas novinhas!
A minha mãe veio até mim e sorriu.
– Os meninos podem correr e caçar libélulas, porque essa é a natureza deles – explicou com carinho. – Mas uma menina tem de aprender a ficar quieta. Se ficares bem quietinha durante muito, muito tempo, a libélula deixará de te ver e virá então esconder-se no fresco da tua sombra.
As outras senhoras concordaram e, em seguida, foram-se todas, abandonando-me no meio do pátio quente.
Absolutamente imóvel como estava, descobri a minha sombra. Tinha pernas curtas e braços longos, duas tranças escuras enroscadas iguaizinhas às minhas. E pensávamos juntas! Quando eu sacudia a cabeça, ela sacudia a cabeça. Abanámos os braços. Levantámos uma perna. Virei-me para ir embora e ela veio atrás. Corri e ela perseguiu-
-me. Escondi-me numa sombra e ela desapareceu! Gritei encantada com a esperteza da minha sombra. Adorei aquela parte escura de mim, que gostava de todas as coisas que só eu (e mais ninguém) podia ver.
Ouvi então Amah chamar:
– Ying-Ying! Está na hora de irmos para o lago!
A minha sombra e eu corremos ao seu encontro.
A família inteira aguardava, em alegre conversa, a chegada dos riquexós ao portão de casa. O pai vestia uma roupa nova castanha. A minha mãe, túnica e calças que eram o inverso das minhas: seda preta e orlas amarelas. E o meu irmão mais velho vestira uma túnica azul fechada com um cordão e um cadeado de prata, para o proteger dos espíritos que roubavam meninos.
Quando chegámos ao lago, fiquei desapontada, porque não havia nem traço de brisa fresca. Pulei do riquexó assim que cheguei. Mas tive de esperar muito tempo enquanto os outros desciam sem pressa nenhuma: a minha mãe, o meu pai, os meus tios e tias, o meu irmão e as minhas primas.
Naquele dia, a beira do lago estava apinhada de gente que andava de um lado para o outro. Da estrada, já se conseguia ver o grande barco que a minha família alugara. Parecia um pavilhão-de-chá flutuante, com colunas vermelhas e telhado pontiagudo.
Então – finalmente! – Amah segurou a minha mão com força e ajudou-me a atravessar a prancha entre o cais e o barco. Assim que os meus pés tocaram o convés, libertei-me.
Os meus primos e eu abrimos caminho por entre as pernas dos adultos, por entre uma maré de tecidos escuros e coloridos, na pressa de explorar o barco inteiro.
Adorei a sensação de balanço em que o meu corpo tombava ora para um lado, ora para o outro. As lanternas vermelhas penduradas no tecto acompanhavam o nosso balanço. Passámos as pontas dos dedos pela amurada, depois corremos por entre as mesas do salão de chá. Empurrámos uma porta de vaivém e fomos ter a uma espécie de cozinha. Um homem com um enorme cutelo de açougueiro na mão virou-se, viu-nos, e nós fugimos apavorados de volta à proa do barco.
E lá fomos encontrar, além dos rostos amigos, um banquete! Os criados esvaziavam cestos de comida para a refeição do meio-dia. E logo apareceram tigelinhas, pauzinhos e taças. Retiraram dos cestos sacos de maçãs, peras e romãs, potes de barro com conservas de carnes e hortaliças, travessas carregadas de camarões saltitantes, caranguejos de água doce, e pilhas de caixas vermelhas contendo, cada uma, quatro bolinhos da lua. Suficientes para todos nós – era mais do que eu poderia ter desejado!
A refeição não demorou muito. O meu pai e os meus tios arrotaram alto. Quando chegou o chá, a minha mãe e as minhas tias retomaram a mesma conversa sonolenta. Os criados estenderam as esteiras de palha, e Amah mandou-me sossegar e deitar-me na minha. E o barco inteiro mergulhou em silêncio, porque todos dormiam a sesta durante as horas mais quentes do dia.
Quando tive a certeza de que todos dormiam, levantei-me silenciosa como um tigre, procurando não acordar Amah. Primeiro, fui até à amurada e admirei o lago. Enchera-se de barcos: barcos a remos, a pedal, veleiros, pesqueiros, canoas com guarda-sóis de linóleo que faziam as vezes de toldo, e grandes pavilhões-de-chá flutuantes iguaizinhos ao nosso.
Depois, deambulei pelo barco. Atravessei às escondidas o lugar em que encontráramos o homem medonho do cutelo e, de repente, vi-me num lugar onde não estivera antes. Na popa do barco, um homem alimentava um fogão de chaminé com gravetos de lenha. Uma mulher desdentada picava hortaliças. Dois garotos com ar rude acocoravam-se na borda do barco. O mais velho retirou de uma gaiola de bambu um pássaro de pescoço comprido, que chilreava estridentemente. O mais novo mergulhou na água e nadou até uma balsa de caniços. Então o mais velho lançou o pássaro por cima da amurada. A ave desatou a bater as asas e foi pousar na superfície luminosa do lago.
Cheguei à amurada bem a tempo de ver o pássaro mergulhar e desaparecer debaixo de água. Em poucos segundos, tornou a emergir e, no longo bico, trazia um peixe que ainda se debatia para escapar. Antes que o pássaro pudesse engolir a presa, o garoto da balsa arrancou-lhe o peixe do bico e arremessou-o para o barco, onde o seu companheiro o atirou para um balde de madeira. Repetiram isto muitas vezes e, a cada uma, eu batia palmas. Que vontade de ser como aqueles garotos!
Então virei-me e descobri mais coisas interessantes. A mulher desdentada mergulhava agora as mãos num balde cheio de enguias. Aproximei-me e achei que pareciam cobras pretas. A mulher apanhou uma bem comprida, que se contorcia, e, com uma faca fina e afiada, abriu-a de ponta a ponta para a deitar, em seguida, de volta para o balde.

Cheguei ainda mais perto. A água tingira-se de vermelho. A velha soltou uma gargalhada e exclamou:
– Que rica sopa para o teu jantar de hoje!
E as suas mãos tornaram a ocupar-se novamente. Xui! Xui! Xui! Raque! Raque! Raque! Escamas de peixe voaram pelos ares como lascas de vidro. Patos grasnavam e as suas penas flutuavam como nuvens diante dos meus olhos. Baldes de água eram lançados para lavar o mau cheiro do convés. Finalmente, a mulher terminou tudo. Ergueu-se nas pernas trôpegas, carregou uns cestos de hortaliças para a cozinha e fiquei sozinha.
Reparei, então, que as minhas roupas novas estavam salpicadas do sangue das enguias, escamas de peixe, fiapos de penas enlameadas. Nesse momento, ouvi a voz de Amah:
– Ying-Ying, onde estás?
Que ideias absurdas eu tinha! Mergulhei imediatamente as mãos no balde das enguias. Esfreguei a água suja nas mangas, nas calças e no resto da túnica. Achei que podia esconder as manchas, pintando toda a minha roupa de vermelho e, se ficasse absolutamente imóvel, ninguém notaria nada.
Foi assim que Amah me encontrou: coberta de sangue de enguia. Como gritou! Correu para ver se me faltavam pedaços, e ver de onde saía tanto sangue. Depois de examinar orelhas e nariz, contar os dedos das mãos e dos pés, arrancou a minha túnica e as calças, ralhando comigo, com voz trémula.
– A tua mãe vai ficar feliz quando nunca mais precisar de se preocupar connosco.
Não estava apenas zangada, acho que estava também apavorada. Era a responsável por mim e, quando eu me metia em sarilhos, ela metia-se num sarilho muito maior.
– A tua mãe vai expulsar-nos para Kunming – lamentou Amah.
Quando a ouvi dizer isso, senti a maior alegria! Ouvira contar que Kunming era um lugar selvagem, governado por macacos que riam, no meio de uma floresta de pedra.
– Quando é que partimos? – perguntei.
Amah abriu a boca, tal o choque ao ouvir-me dizer aquela barbaridade. E deixou-me ali, na popa do barco, em combinação e amuada, porque me recusara a pedir desculpas.
A noite chegou, escureceu o céu, pintou a água de negro. Eu continuava sentada na proa do barco, observando as lanternas vermelhas a luzir por todo o lago. Ouvia o barulho de pessoas contentes que, na proa, esperavam, ansiosas, o início do banquete. Senti vontade de estar com elas.
Olhei para a água sob os meus pés nus, e vi o meu reflexo: as pernas, a cara amuada, a mão que sacudia uma pantufa de tigre suja. E, na água negra que cintilava, via a lua cheia nascer lá no alto, uma lua tão quente e tão grande que parecia o sol. A Dama da Lua! Quase me esquecera. Virei-me para procurá-la e contar o meu desejo secreto. Mas, naquele preciso momento, treque! trerereque! teteque! – os foguetes explodiram. Perdi o equilíbrio e, segurando ainda a pantufa, caí no lago.
A água estava fria e por algum tempo não senti medo. Chamei por Amah, sabendo que ela acudia sempre que eu chamava. E então comecei a sufocar com a água que entrava pelo meu nariz, garganta e olhos.
– Amah!
Tentei gritar novamente e fiquei muito zangada porque estava a demorar a vir. Então senti uma sombra escura roçar pela minha perna; tive a certeza de que era uma cobra marinha!
Ela enroscou-se em mim e apertou-me como se eu fosse uma esponja e depois atirou-me para o ar. Caí dentro de uma rede de cordas cheia de peixes que se debatiam. Comecei a cuspir água e a gritar, procurando reaver a minha pantufa encharcada.
Quando consegui finalmente abrir os olhos, vi uma grande sombra. Uma segunda sombra subia para o barco. Era um pescador molhado até os ossos.
– É muito pequeno? Então vamos atirar este peixinho de volta ao mar!
O homem ria alto. E embora a noite fosse quente, comecei a tremer, demasiado assustada para chorar.
– Pára com isso – disse a outra sombra, uma mulher. – Estás a assustar a menina. – Virou-se para mim com gentileza. – Não tenhas medo. Vieste de outro barco pesqueiro? Qual foi? Mostra-nos.
Corri os olhos pelo lago. O meu coração começou a bater com mais força. Queria tanto encontrar a minha família! Mas só via barcos a remo, veleiros, e pesqueiros iguais àquele em que estava, com a proa afilada e uma casinha no meio.
Então – finalmente! – encontrei o meu.
– Ali – disse e apontei para um pavilhão-de-chá flutuante carregado de gente risonha e lanternas que balançavam. – Ali! Ali!
E comecei a chorar, impaciente por voltar à minha família. O nosso pesqueiro deslizou rápido até ao pavilhão.
– Ei! – gritou o pescador para o barco. – Vocês perderam uma criança, uma menina que caiu à água?
Ouvi gritos vindos do pavilhão flutuante. Apertei os olhos para ver os rostos da minha mãe, do meu pai, de Amah. As pessoas aglomeraram-se de um lado do barco para nos ver melhor. Debruçaram-se, apontaram para nós, risonhas, os rostos corados, falando alto.
Uma menina apareceu por entre as pernas dos adultos.
– Aquela não sou eu – exclamou. – Eu estou aqui. Não caí à água.
As pessoas soltaram boas gargalhadas, depois voltaram-nos as costas.
– Menina – disse o pescador, triste, enquanto nos afastávamos – enganaste-te.
Comecei a tremer de raiva. Não vira ninguém que se importasse com o meu desaparecimento. Quanto mais nos afastávamos, maior o mundo ficava. E agora sentia que me perdera para sempre.
A pescadora olhou-me com atenção: as tranças desfeitas, a combinação molhada e suja.
– Que vamos fazer? – exclamou. – Ninguém está à procura da menina.
– Quem sabe se não será uma mendiga – propôs o homem. – Repara só nas roupas dela. É uma dessas crianças que andam em balsinhas para pedir esmola.
Fiquei aterrorizada. Talvez fosse verdade: tornara-me numa pobre mendiga, desgarrada da família.
– Ora! És cego? – perguntou a mulher, aborrecida. – Olha a pele dela: é clara demais. E as solas dos pés são macias. Esta miúda nunca andou descalça na vida.
Fiquei tão feliz ao ouvir isto! E lembrei-me então da pantufa encharcada na mão. Mostrei-a ao homem e à mulher.
– Ai, ai, ai! – exclamou a mulher, examinanda a bola amarela e preta que eu tinha na mão. – Não tenho dúvida de que tu és o tesouro perdido de alguém.
– Então vamos deixar a miúda na margem – disse o homem. – Se realmente tem uma família que a quer, é lá que a vão procurar.
Quando encostámos ao cais, o homem pegou-me ao colo e tirou-me do barco.
– Tem mais cuidado da próxima vez – despediu-se a mulher.
No cais, com a lua fulgurante às costas, reencontrei minha sombra. Estava mais curta, encolhida, com um ar selvagem. Corremos juntas até às moitas que ladeavam o caminho e escondemo-nos. Ouvi sapos e grilos.
Depois, flautas e címbalos que tilintavam, um gongo e tambores.
Das moitas, espiei um magote de gente aglomerada e, mais alto, um palco com uma lua. Um homem subiu ao palco e anunciou:
– E agora a Dama da Lua vai apresentar-vos uma peça de sombras e entoar o seu lamento.
A Dama da Lua! Vi então a sombra de uma mulher projectar-se na lua brilhante do palco. Penteou os longos cabelos e começou a cantar:
– Que triste sina a minha – moro na lua e o meu marido no sol. Todos os dias e todas as noites passamos um pelo outro, sem nunca nos vermos, excepto hoje à noite, a noite que marca o meio do Outono. Dedilhou o alaúde e continuou:
– Meu marido, o mestre-arqueiro, abateu dez sóis no céu oriental. Salvou o mundo e recebeu de prémio um pêssego encantado, o pêssego da vida eterna!
A sombra da Dama da Lua cresceu e abriu uma caixa.
– Quando o meu marido partiu – cantou – descobri o pêssego encantado. E desejando viver para sempre, comi-o de uma só vez.
A Dama da Lua começou a flutuar e voou como uma libélula de asas partidas.
– Ele expulsou-me deste mundo, e mandou-me ir viver para a lua.
Dlim! Dlim! Dlim! A música triste do alaúde recomeçou. E vi então a silhueta da coitada recortar-se na lua brilhante. Os seus cabelos eram tão longos que se arrastavam pelo chão e enxugavam as lágrimas que caíram. Passou-se uma eternidade, porque a sua sina era ficar perdida na lua, lamentando para sempre o seu acto egoísta.
– Porque a mulher é yin – cantou tristemente. – É a escuridão interior onde moram as paixões. E o homem é yang, a verdade fulgurante que ilumina as nossas mentes.
O palco escureceu.
Quando terminou a cena, eu chorava com a Dama da Lua. Entendia o o que sentia. De um momento para o outro, as duas tínhamo-nos perdido para o mundo, e nenhuma de nós conseguia encontrar o caminho de volta. Nesse instante, o mesmo rapaz voltou ao palco e anunciou:
– E agora, para agradecer ao público, a Dama da Lua concordou em conceder um desejo secreto a cada um dos presentes. – Ouviram-se murmúrios animados na plateia. – Em troca de uma pequena doação, naturalmente – acrescentou, e todos vaiaram, e começaram a afastar-se. Ninguém lhe deu atenção, a não ser a minha sombra e eu.
– Eu tenho um desejo! – gritei e dei passo em frente, acenando com a pantufa. Mas o rapaz nem parou para me escutar. Corri, rápida como uma lagartixa, para os fundos do palco, do outro lado da lua.
E ali deparei com ela: a Dama da Lua, radiosa à luz de uma dúzia de lâmpadas, sacudia os longos cabelos escuros.
– Eu tenho um desejo – sussurrei, mas ela não me ouviu.
Pensei depressa, procurando lembrar-me de todos os desejos daquele dia: tirar as roupas quentes, comer o bolinho da lua sozinha, voar como uma libélula, ser a menina despreocupada do barco.
– Tenho um desejo – repeti, desta vez um pouquinho mais alto. Aproximei-me da Dama da Lua. E pude ver a pele flácida do rosto, o nariz largo e oleoso, os enormes dentes separados, os olhos pintados de vermelho. Naquele instante, o seu vestido de seda escorregou-lhe dos ombros, e, com um gesto cansado, ela arrancou a longa cabeleira. Antes que o desejo secreto pudesse escapar dos meus lábios, a Dama da Lua olhou para mim e transformou-se num homem.
Ai, ai! Quando vi quem era, na verdade, a Dama da Lua, saí a correr. Corri pelo palco e pelas moitas. Corri pelo caminho, chocando com as pessoas que andavam pela margem do lago. Ainda a correr, galguei uma ponte para peões. E, com a lua cheia atrás de mim, gritei o que sabia ser um desejo sincero do fundo do meu coração: queria ser encontrada!
– E sabem – disse Nai-nai às netas, que riam com gosto – consegui realizar o meu desejo. Porque hoje estou aqui para contar esta história. Encontrei toda a gente – a minha mãe, o meu pai, os meus tios e tias, e Amah – que me acenava com a outra pantufa de tigre. E, quando me lancei nos braços deles, exclamaram:
– Encontrámos-te! Até que enfim que te encontrámos!
Maggie, Lily e June aplaudiram.
– Naturalmente, deixei que pensassem que aquilo era verdade – continuou Nai-nai. – Mas, sabem, eu já me encontrara. Tinha descoberto que espécie de tigre eu era. Porque aprendera que havia vários tipos de desejo: uns vinham da barriga, outros do egoísmo, e outros do coração.
Nai-nai perguntou:
– Vocês seriam capazes de fazer o mesmo?
Maggie, Lily e June entreolharam-se e sorriram. Juntaram as cabeças e cochicharam entre si, e contaram então a Nai-nai o desejo secreto.
– Mas que desejo tão bom! – exclamou Nai-nai. – Um desejo que todas desejamos.
E juntas, Maggie, Lily e June foram com a avó lá para fora e realizaram o seu desejo: dançaram com as suas sombras, gritaram e riram à luz da lua cheia.

Amy Tan
A Dama da Lua
Rio de Janeiro, Rocco, 1995
(texto adaptado)

Publicado em contos tradicionais, crianças, família, histórias, oriente, tradições, tradições/usos/costumes | Tagged China | Sem comentários ainda

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