O presente mais valioso
Era uma vez um sultão que tinha uma filha de tal modo bela que, quando ela nascera, o termo sublime tinha adquirido um novo significado. O sultão tinha tanto orgulho na filha que decretou que nenhum homem poderia desposá-la sem primeiro ofertar ao pai o presente mais valioso do mundo. Se ia abdicar da filha, tinha de obter algo em troca.
Ao palácio do sultão, acorreram reis e príncipes, nobres e eruditos, guerreiros e viajantes de todos os lados do mundo. Cada um levava o que achava ser o presente mais valioso.
Deram-lhe oiro mas ele disse:
— Tenho arcas cheias de oiro.
Deram-lhe prata mas ele disse:
— Tenho salas cheias de prata.
Deram-lhe jóias mas ele disse:
— Tenho montanhas de jóias.
Deram-lhe cavalos mas ele riu-se e disse:
— Tenho uma cavalariça com quinhentos cavalos, todos com freios de prata e selas de oiro.
Em breve os pretendentes deixaram de aparecer.
No alto das montanhas vivia um velho rei com os seus três filhos. Certo dia, acordou e chamou-os.
— Meus filhos, esta noite tive um sonho. Nesse sonho, um de vocês casava-se com a filha do sultão.
— Qual de nós? — perguntaram.
— Não sei — riu o rei. — Acordei antes de o sonho ter chegado ao fim. Mas vou dar mil moedas de oiro a cada um para que possam procurar o presente mais valioso.
Os rapazes não só eram irmãos, mas também os melhores amigos uns dos outros. Decidiram procurar juntos o presente. Tinham ouvido falar de uma aldeia mágica no alto das montanhas e decidiram tentar a sua sorte. Montaram os cavalos e partiram.
Após uma longa jornada, encontraram a aldeia. Prenderam os cavalos no largo e voltaram-se para as ruas que dali partiam em três direcções. O mais velho disse:
— Tu segues a rua da esquerda — ordenou ao irmão do meio. — Tu tomas a rua da direita — ordenou ao mais novo. — Eu vou pela rua do meio. Encontramo-nos aqui dentro de uma hora. Que a sorte nos favoreça.
Os três irmãos apertaram as mãos e seguiram pelas ruas designadas.
Tal como em quase todas as aldeias, cada rua albergava uma profissão diferente. Os oleiros trabalhavam todos numa rua, os carpinteiros noutra. O irmão mais velho seguiu pela rua do meio, uma rua onde as lojas só vendiam espelhos. Os espelhos eram lindos, mas não viu nada de precioso, nada de verdadeiramente especial.
Ao fim de uma hora, entrou na última loja. Enquanto olhava em seu redor, ouviu uma voz:
— Bem, o que queres?
Era um homem de baixa estatura, com uma barba preta e cabelo comprido, igualmente preto. Tinha uma túnica preta e um chapéu pontiagudo.
— Desculpe?
— Perguntei o que queres. Não me faças perder o meu tempo, jovem.
— Bem, não acho que me possa ajudar. Ando à procura do presente mais valioso do mundo.
— A sério? Está lá atrás. Anda!
— O quê? — O jovem ficou espantado com a resposta.
— Não penses duas vezes, rapaz. O que procuras está nas traseiras.
Foram até às traseiras da loja. O homenzinho remexeu numa mesa que estava a abarrotar de coisas e deu-lhe, por fim, um espelho liso, guarnecido a cobre.
— Aqui tens o presente mais valioso do mundo.
— É só um espelho — disse o rapaz. — Um simples e vulgar espelho.
— Este espelho, meu jovem, é mágico. Olha para ele e pensa no teu pai.
O rapaz fez o que o velho ordenou e pouco tempo depois o espelho ficou cheio de nuvens. Quando as nuvens se dissiparam, viu o pai sentado no quarto a ler um livro.
— Não acredito!
— É maravilhoso, não é? Basta olhares para o espelho e pensares em alguém, que essa pessoa aparece.
— Quanto custa?
— Mil moedas de oiro.
O rapaz entregou o dinheiro ao velho e saiu a toda a pressa para se encontrar com os irmãos.
O segundo irmão foi pela rua da esquerda. Nessa rua só se vendiam tapetes. Eram todos maravilhosos, mas o rapaz nada viu de valioso nem de especial. Quando o tempo aprazado com os irmãos estava a esgotar-se, entrou na última loja. Enquanto olhava em seu redor, ouviu uma voz:
— O que queres?
Era um homem de baixa estatura, com uma barba preta e cabelo comprido, igualmente preto. Tinha uma túnica preta e um chapéu pontiagudo.
— Perdão?
— Perguntei o que queres. Não estás aqui para me fazer perder o meu tempo, pois não?
— Não, senhor, mas acho que não me pode ajudar. Ando à procura do presente mais valioso do mundo.
— Também tu? Está lá atrás. Anda comigo.
— Está onde?
— Já te disse. Não gosto de me repetir.
O rapaz seguiu o homenzinho até à sala das traseiras. Aí, o estranho homem dirigiu-se a um canto e pegou num tapete enrolado. Desenrolou-o em frente do jovem e sorriu com ar triunfante.
— Aqui está o presente mais valioso do mundo.
O rapaz olhou o tapete atentamente.
— É um tapete. Já foi usado. Ora veja, até tem nódoas.
— Isto, jovem, é um tapete mágico. Senta-te nele, fecha os olhos e pensa na casa do teu pai.
O rapaz fez como lhe ordenaram e, quando abriu os olhos, estava no quarto do pai.
— O que estás aqui a fazer? — exclamou o pai.
— Eu estava naquela loja com o velho quando…
No instante em que disse “velho”, encontrou-se de volta na loja.
— É inacreditável!
— É mesmo. Quando quiseres ir a algum lado, só tens de pensar no lugar e estarás lá num relâmpago.
— Quanto custa?
— Mil moedas de oiro.
O jovem pagou-lhe e saiu para se encontrar com os irmãos.
O irmão mais novo foi pela rua da direita. Era a rua onde se vendiam frutas e legumes. Viu brócolos e abacates coloridos e maduros, mas nenhum deles era valioso. Ao fim de uma hora, chegou à última bancada e, ao olhar em volta, ouviu uma voz:
— Bom, o que queres?
O jovem voltou-se e sorriu para o homem de baixa estatura vestido de preto.
— Bom dia, senhor, como está?
— Hoje estou bem, obrigado.
O homenzinho estava espantado com a cortesia do rapaz.
— Será que me pode ajudar? Ando à procura da prenda mais valiosa do mundo.
— Claro. Está lá atrás. Segue-me.
— Óptimo — exclamou o irmão mais novo.
O homenzinho estava um pouco surpreendido com este irmão. Dirigiu-se a uma mesa e voltou com um enorme limão.
— Aqui está! A prenda mais valiosa do mundo.
O jovem segurou-o com cuidado.
— Obrigado pela sua ajuda, senhor. Quanto é?
— Mil moedas de oiro. Mas não queres saber o que faz? O jovem riu-se.
— Claro que sim! Que estupidez a minha!
— Este limão é mágico. O seu sumo cura qualquer doença. No entanto, usa-o com sabedoria, pois só pode ser usado uma vez.
O jovem agradeceu-lhe e foi juntar-se aos irmãos.
Todos chegaram ao largo da aldeia ao mesmo tempo. Talvez o leitor não ache isto estranho, mas eu acho.
— Bom, espero que os dois me tenham trazido uma prenda de casamento — disse o irmão mais velho — porque eu acho que tenho o presente mais valioso do mundo. Um espelho mágico.
— Eu tenho um tapete mágico — disse o do meio. — Por isso, também eu posso ser o noivo.
— Eu tenho um limão — disse o mais novo.
— Um quê? — exclamaram os dois irmãos mais velhos.
— É um limão mágico que cura qualquer doença. Mas só funciona uma vez.
— Experimentaste-o?
— Claro que não! Só funciona uma vez. Trouxe-o de boa fé. E, além disso, não estou doente.
Os outros dois irmãos olharam para ele e sorriram. Gostavam muito do irmão mais novo, mas não deixava de ser o mais novo.
— Bem, vou ver como é a princesa.
O irmão mais velho pensou na princesa e, quando olhou para o espelho, viu-a, rodeada de médicos. A seu lado, o pai chorava.
— Ela está doente, talvez a morrer.
O irmão do meio desenrolou o tapete mágico.
— Todos para o tapete — disse. — E não te esqueças do limão.
Chegaram num instante ao quarto da princesa.
O sultão desembainhou a espada.
— O que fazem no quarto da minha filha?
— Eu e os meus irmãos estamos aqui para ajudar. Com o meu espelho mágico vimos que vossa filha estava doente. Com o tapete mágico do meu irmão chegámos aqui num segundo, e — espero que assim seja — o limão mágico do meu irmão mais novo vai curá-la.
Os médicos pegaram no limão, cortaram-no e espremeram-lhe o sumo. Assim que a princesa o bebeu, a febre desapareceu e ficou boa. Mas agora o sultão tinha um problema. Quem iria casar com a filha? O espelho mostrara-lhes que ela estava doente. O tapete trouxera-os antes que morresse. O limão curara-lhe a febre, mas agora tinha desaparecido.
Foi a princesa que resolveu o dilema.
— Pai, o espelho e o tapete são, na verdade, presentes extraordinários, mas a prenda mais valiosa de todas é a vida. Foi isso que o irmão mais novo me deu.
Casaram então e viveram vidas longas e justas. E os dois irmãos mais velhos tiverem uma vida cheia de aventuras graças ao espelho e ao tapete.
Dan Keding
Stories of Hope and Spirit
Little Rock, August House Publishers, 2004
tradução e adaptação