Dons do Peixinho Dourado
Romas olhou pela janela e quase perdeu o ar ao ver no pátio um novo automóvel brilhando ao sol.
— De quem é o carro? — perguntou ao irmão mais velho, Mykolas, quando conseguiu recuperar a respiração.
— Do pai da Danute.
Que maçada! A miúda e ele tinham combinado ir nesse dia à procura de âmbar…
— Já não vamos…
— Porque não? — perguntou uma voz desconhecida.
Romas voltou-se e viu junto à porta, como se tivesse saído da terra, um homem alto e magro sorrindo-lhe.
— Porque não? Claro que vamos! — Estendeu a mão a Romas: — Bom dia. Não foste tu quem curou a minha filha com morangos?
— Fui. — Romas apertou timidamente uma mão grossa.
— Foi uma boa acção. Sou o pai da Danute.
Nesse momento, surgiu a pequena atrás dele.
— Pai! Já tomei o pequeno-almoço. Podemos ir!
— Não tenhas pressa. Romas ainda não comeu e não podemos partir.
Romas limpou num instante o prato e bebeu o leite. Momentos depois, rodavam os três pelo pinhal banhado de sol.
— Que beleza de lugar — admirou-se o pai da Danute. — Que ar! O mar ainda fica muito longe?
— Bastante — respondeu Romas, com ar importante.
De repente, um esquilo atravessou a estrada. Trepou para um pinheiro e pôs-se a observá-los com curiosidade.
— Bom dia, esquilo! — cumprimentou-o o pai de Danute. — Queres uma coisa?
E, como um ilusionista, enfiou a mão num bolso e dele tirou um punhado de avelãs, que colocou em cima de um tronco. Depois, pegou nos jovens pela mão para afastá-los um pouco.
— E para nós? — pediu Danute.
— Para vós? Está bem. — Voltou a procurar, com um ar misterioso, no bolso. — Um, dois, três! — E na mão dele surgiram rebuçados.
Enquanto saboreavam os rebuçados, o esquilo, ganhando por fim coragem, saltou para cima do tronco.
Eram tantas avelãs que o animalzinho não sabia por qual havia de começar. Sentou-se, armou a cauda ruiva e olhou-os interrogativamente.
— Bom proveito, esquilo! Adeus! — disse o pai da Danute, acenando-lhe com a mão.
— Tem cuidado com os dentes, as cascas são duras! — avisou-o a filha rindo de contente.
E continuaram o caminho.
Romas conhecia a estrada de olhos fechados. Era fácil: sempre a direito. Por fim, chegaram a uma duna, por detrás da qual se estendia uma infinita praia banhada pelo mar.
Que esquisito era o pai da Danute: cumprimentava o mar!
— Bom dia, ó mar! Hoje estás muito manso!
— Por vezes, põe-se furioso — objectou Romas.
De facto, na véspera, o mar estivera bravo: um vento violento agitara-o, encapelara-o, fizera-lhe ferver as ondas. E estas levantavam, do fundo, areia, conchas e algas, que atiravam à costa. E presas nas algas, como peixes na rede, vinham à costa pedrinhas de âmbar, resina antiga endurecida mas transparente e leve. As mais das vezes, porém, eram do tamanho de uma gota de água ou até de um grão de papoila. Mas havia-as também do tamanho de um punho! Era uma pedra transparente, amarela-
-viva como um fragmento de Sol… Após a tempestade da véspera, na praia viam-se montículos escuros de algas cheirando a iodo.
— Depressa! — gritou Danute. — Quero ser a primeira a encontrar uma! — E precipitou-se para o montículo mais próximo. Mal mexeu nas algas exclamou: — Olhai!
Na sua mão reluzia um grânulo amarelo.
— Que sorte! — sorriu o pai. — Não é assim tão fácil distingui-la.
Danute franziu as sobrancelhas: porque se riam da sua pedra?
— Ora tenta encontrar uma maior…
— É para já. Mas terei de me pôr de cócoras, para ver alguma coisa.
Quando se ajoelhou, foi a vez de Romas e Danute romperem em gargalhadas. De facto, era divertido ver um homem alto procurando algo na areia e quase a tocar-lhe com o nariz…
De repente, endireitou-se e soltou um grito tão alto que assustou uma gaivota que passava perto:
— Aqui está uma! Aqui está uma!
Romas e Danute correram para ele esperando ver um pedação de âmbar! Mas o pai tinha apenas um minúsculo grãozinho amarelado… Danute guardou-o na caixa de fósforos: se não havia maiores, serviam as pequeninas.
Momentos depois, o pai pôs-se de pé, esfregando os rins.
— Ufa, que calor. Estou cansado. E se nos deitássemos um bocado?
— Deita-te tu. Nós não estamos cansados — respondeu Danute.
— E se tomássemos banho?
— Toma tu. Nós queremos procurar âmbar.
— Bem, procurai lá. Se voltarmos de mãos a abanar, a mãe vai troçar de nós.
O pai de Danute tirou a camisa, as calças e ficou em calções de banho. Entretanto, Romas começou a mexer em mais um montículo de algas. De repente, qualquer coisa brilhou entre a verdura das plantas. Não acreditou no que via: entre vários seixos polidos pelo mar, cintilava uma pedra transparente do tamanho de uma caixa de fósforos.
— Que grande! — exclamou Danute, extasiada. — Papá, papá! Olha para isto!
— Isto sim, é uma pedra! Que rica! — disse o pai, acenando a cabeça de admiração.
Rolando o seu achado na palma da mão, Romas examinava-o de todos os lados.
— Que beleza! — suspirou com inveja Danute, e afagou ao de leve a pedra.
— Toma — disse Romas estendendo-lha.
Danute levantou os olhos para o pai, como se lhe pedisse aprovação. Romas insistiu:
— Pega! Não tenho pena, pois encontrarei outra.
— Hoje? — perguntou Danute.
— Talvez da próxima vez, mas encontrar, isso encontrarei! Pega, por favor. — E, quase à força, meteu-lhe a pedra na mão.
— Obrigada — balbuciou a petiza, sem acreditar na sua sorte.
— Sabes — disse o pai dele, em tom grave — não encontrei muitos rapazes tão bons como tu! — Deu uma palmada no ombro de Romas e correu para a água.
Quando já estava um pouco afastado, mergulhou. Demorava a vir à superfície, e Danute começou a inquietar-se. Por fim, o pai voltou à tona e nadou para a praia. Gritava qualquer coisa, mas as ondas não deixavam ouvir. Quando já estava mais próximo, as crianças ouviram-no dizer:
— Correi aqui! Apanhei um peixinho dourado! Pede que o deite ao mar.
Tinha as mãos juntas e mergulhava-as continuamente na água. Os jovens entraram a correr no mar, o pai mostrou-lhes o peixe.
— Na verdade, é dourado! — exclamou Danute.
— Então, filha, formula um desejo, depressa. O peixinho satisfará qualquer um.
— Quero uma boneca que fale. E feche os olhos — desabafou Danute.
— E tu, Romas, qual é o teu desejo mais íntimo?
O pai voltou a tirar as mãos da água e aproximou-as de um ouvido.
— Estão a ouvir? Diz que fará tudo se o soltarmos.
Romas lançou-lhe um olhar desconfiado, mas pediu timidamente:
— Talvez, uma bola… Na nossa loja há bolas assim, de borracha, vermelhas. São muito boas para jogar futebol!
— Acham que o peixinho nos vai enganar? — perguntou o pai da Danute, libertando o peixe na água.
— Não, não nos enganará! — garantiu ela, batendo com as mãos na água.
Romas, porém, não acreditava muito. Duvidava que fosse possível apanhar um peixe daqueles naquele sítio. Porque é que o pai e os outros pescadores nunca o tinham visto? Teria vindo de mares longínquos? Tinha de perguntar ao irmão Mykolas se existiam peixinhos dourados. O irmão sabia de certeza: tinha sido pescador numa traineira e apanhado toda a espécie de peixes.
Quando lhe perguntou, Mykolas respondeu, com ar sério:
— Então não há? Nunca tinhas ouvido falar disso? Um velho apanhou um peixinho dourado e este disse-lhe com voz humana: «Ó velho, deita-me ao mar!… Recompensar- te-ei cumprindo qualquer desejo teu». Portanto, se o vosso peixinho era dos verdadeiros, espera um pouco!
De manhã, mal Romas abriu os olhos, viu a mãe junto à cama, que lhe disse:
— Levanta-te! Olha o que encontrei perto da porta!
Era uma bola! Não de borracha, mas das autênticas, de couro. Nem na loja havia bolas daquelas! Só na cidade.
— Foi o peixinho, de verdade?… — sorriu, ainda desconfiado.
— Claro.
— E Danute, recebeu alguma coisa?
— Uma boneca. Que fala e fecha os olhos.
— Ora vejam!
Romas estava muito contente. Aliás, sabia quase de certeza quem lhe dera a bola, mas não queria fazer perguntas sobre isso. Que pensassem que foi o peixinho!
Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987