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		<title>Diálogo de Culturas</title>
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		<title>Voa, Gaivota, Voa!</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 21:17:11 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Voa, Gaivota, Voa! Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou: — Romas! — O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã. — O Vilius anda à tua procura! — Que quer ele? — Tem uma gaivota. — Uma gaivota? — Romas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=80&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Voa, Gaivota, Voa!</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou:<br />
— Romas!<br />
— O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã.<br />
— O Vilius anda à tua procura!<br />
— Que quer ele?<br />
— Tem uma gaivota.<br />
— Uma gaivota? — Romas fez uma careta: a maçã estava verde.<br />
— Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã!<br />
— Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes.<br />
Com a maçã na mão e depois de ter normalizado a respiração, Danute explicou:<br />
— Sabes, quer vender-te a gaivota. Vamos!<br />
A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Claro que Romas logo se gabara disso à rapaziada. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este meteu-lhe a moeda debaixo do nariz: é ou não verdade?<br />
Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho?! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas&#8230; De qualquer maneira, havia de surripiar a moeda ao Romas. Mas como?<br />
Vilius passou dois dias dando cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito.<br />
Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado em cima de um barco virado. Os seus cálculos bateram certo: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois.<br />
Quando Romas se aproximou, Vilius, sempre sentado em cima do barco, mostrou- lhe a gaivota e perguntou:<br />
— Queres comprá-la?<br />
Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo.<br />
— Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la!<br />
— Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer-lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos:<br />
— Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa.<br />
Romas tinha pena do pássaro.<br />
— É possível curá-la? — perguntou.<br />
— Não custa nada! Mas como é? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas.<br />
— Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a choramingar. Também estava com pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te.<br />
Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa.<br />
— Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes?<br />
— Compro!<br />
— Então, passa para cá a moeda!<br />
Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota.<br />
— Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro.<br />
Vilius pegou na moeda e deu a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa.<br />
Depois de examinar a asa ferida, o avô disse:<br />
— Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo.<br />
Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena da moeda de rublo&#8230;<br />
— Ora bem&#8230; Primeiro, vamos ligar a asa&#8230; — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas.<br />
Quando a mãe voltou do trabalho, viu aquilo e perguntou severamente:<br />
— O que se passa aqui?<br />
— Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas.<br />
— Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe.<br />
A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um óptimo lugar para tratar da gaivota.<br />
O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota.<br />
— Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ficará muito bem — sugeriu.<br />
— E quando ficar boa? — quis saber Romas.<br />
— Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que tem sempre fome.<br />
A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos.<br />
No dia seguinte, já estava melhor. Um dia depois, não podendo ficar mais na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius, Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita.<br />
Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação.<br />
— Mostra-me lá a tua gaivota — pediu.<br />
O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha.<br />
— O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou esta porcaria por um rublo. Caíste como um patinho!<br />
Romas respondeu-lhe com as palavras do avô:<br />
— Teremos mais uma gaivota neste mundo.<br />
— Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai ficar aqui a vida toda. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro.<br />
Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Agora, já queria que não melhorasse tão depressa!<br />
A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. Oxalá não se magoe mais, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, ferramenta do avô, aparelhos de pesca do pai — pensava Romas.<br />
— Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — Que pensas?<br />
O coração apertou-se-lhe. Estava a ponto de chorar. Mas não era um bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza.<br />
— Não existem gaivotas domésticas. Não são a mesma coisa que galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas. — Precisam de liberdade.<br />
Como viu que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso:<br />
— Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias.<br />
Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no tecto e caiu em cima das canas de pesca do pai.<br />
A ave lançou a Romas um olhar muito, muito triste.<br />
— Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!<br />
Quis apanhar a ave para levá-la para a costa, mas esta não se deixava caçar.<br />
Só o avô conseguiu, embora com grande dificuldade, agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia.<br />
— Vamos, avô.<br />
Chegaram à costa. Quase imediatamente, juntaram-se-lhes Giedrius, Danute e Ruta.<br />
O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Daí a pouco, teriam mais uma companheira.<br />
— Voa — disse o rapaz, atirando a gaivota ao ar.<br />
A gaivota levantou voo.<br />
Romas nem sentia que lágrimas lhe turvavam os olhos.<br />
E não era do dinheiro que tinha pena!</p>
<p style="text-align:right;">Viktoras Miliūnas<br />
<em>Voa, gaivota, voa</em><br />
Edições Ráduga Moscovo, 1987</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/80/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/80/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/80/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/80/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=80&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Dons do Peixinho Dourado</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 21:15:59 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Dons do Peixinho Dourado Romas olhou pela janela e quase perdeu o ar ao ver no pátio um novo automóvel brilhando ao sol. — De quem é o carro? — perguntou ao irmão mais velho, Mykolas, quando conseguiu recuperar a respiração. — Do pai da Danute. Que maçada! A miúda e ele tinham combinado ir [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=79&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Dons do Peixinho Dourado</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Romas olhou pela janela e quase perdeu o ar ao ver no pátio um novo automóvel brilhando ao sol.<br />
— De quem é o carro? — perguntou ao irmão mais velho, Mykolas, quando conseguiu recuperar a respiração.<br />
— Do pai da Danute.<br />
Que maçada! A miúda e ele tinham combinado ir nesse dia à procura de âmbar&#8230;<br />
— Já não vamos&#8230;<br />
— Porque não? — perguntou uma voz desconhecida.<br />
Romas voltou-se e viu junto à porta, como se tivesse saído da terra, um homem alto e magro sorrindo-lhe.<br />
— Porque não? Claro que vamos! — Estendeu a mão a Romas: — Bom dia. Não foste tu quem curou a minha filha com <a href="http://interculturalidades.wordpress.com/2008/05/08/morangos/" target="_blank">morangos</a>?<br />
— Fui. — Romas apertou timidamente uma mão grossa.<br />
— Foi uma boa acção. Sou o pai da Danute.<br />
Nesse momento, surgiu a pequena atrás dele.<br />
— Pai! Já tomei o pequeno-almoço. Podemos ir!<br />
— Não tenhas pressa. Romas ainda não comeu e não podemos partir.<br />
Romas limpou num instante o prato e bebeu o leite. Momentos depois, rodavam os três pelo pinhal banhado de sol.<br />
— Que beleza de lugar — admirou-se o pai da Danute. — Que ar! O mar ainda fica muito longe?<br />
— Bastante — respondeu Romas, com ar importante.<br />
De repente, um esquilo atravessou a estrada. Trepou para um pinheiro e pôs-se a observá-los com curiosidade.<br />
— Bom dia, esquilo! — cumprimentou-o o pai de Danute. — Queres uma coisa?<br />
E, como um ilusionista, enfiou a mão num bolso e dele tirou um punhado de avelãs, que colocou em cima de um tronco. Depois, pegou nos jovens pela mão para afastá-los um pouco.<br />
— E para nós? — pediu Danute.<br />
— Para vós? Está bem. — Voltou a procurar, com um ar misterioso, no bolso. — Um, dois, três! — E na mão dele surgiram rebuçados.<br />
Enquanto saboreavam os rebuçados, o esquilo, ganhando por fim coragem, saltou para cima do tronco.<br />
Eram tantas avelãs que o animalzinho não sabia por qual havia de começar. Sentou-se, armou a cauda ruiva e olhou-os interrogativamente.<br />
— Bom proveito, esquilo! Adeus! — disse o pai da Danute, acenando-lhe com a mão.<br />
— Tem cuidado com os dentes, as cascas são duras! — avisou-o a filha rindo de contente.<br />
E continuaram o caminho.<br />
Romas conhecia a estrada de olhos fechados. Era fácil: sempre a direito. Por fim, chegaram a uma duna, por detrás da qual se estendia uma infinita praia banhada pelo mar.<br />
Que esquisito era o pai da Danute: cumprimentava o mar!<br />
— Bom dia, ó mar! Hoje estás muito manso!<br />
— Por vezes, põe-se furioso — objectou Romas.<br />
De facto, na véspera, o mar estivera bravo: um vento violento agitara-o, encapelara-o, fizera-lhe ferver as ondas. E estas levantavam, do fundo, areia, conchas e algas, que atiravam à costa. E presas nas algas, como peixes na rede, vinham à costa pedrinhas de âmbar, resina antiga endurecida mas transparente e leve. As mais das vezes, porém, eram do tamanho de uma gota de água ou até de um grão de papoila. Mas havia-as também do tamanho de um punho! Era uma pedra transparente, amarela-<br />
-viva como um fragmento de Sol&#8230; Após a tempestade da véspera, na praia viam-se montículos escuros de algas cheirando a iodo.<br />
— Depressa! — gritou Danute. — Quero ser a primeira a encontrar uma! — E precipitou-se para o montículo mais próximo. Mal mexeu nas algas exclamou: — Olhai!<br />
Na sua mão reluzia um grânulo amarelo.<br />
— Que sorte! — sorriu o pai. — Não é assim tão fácil distingui-la.<br />
Danute franziu as sobrancelhas: porque se riam da sua pedra?<br />
— Ora tenta encontrar uma maior&#8230;<br />
— É para já. Mas terei de me pôr de cócoras, para ver alguma coisa.<br />
Quando se ajoelhou, foi a vez de Romas e Danute romperem em gargalhadas. De facto, era divertido ver um homem alto procurando algo na areia e quase a tocar-lhe com o nariz&#8230;<br />
De repente, endireitou-se e soltou um grito tão alto que assustou uma gaivota que passava perto:<br />
— Aqui está uma! Aqui está uma!<br />
Romas e Danute correram para ele esperando ver um pedação de âmbar! Mas o pai tinha apenas um minúsculo grãozinho amarelado&#8230; Danute guardou-o na caixa de fósforos: se não havia maiores, serviam as pequeninas.<br />
Momentos depois, o pai pôs-se de pé, esfregando os rins.<br />
— Ufa, que calor. Estou cansado. E se nos deitássemos um bocado?<br />
— Deita-te tu. Nós não estamos cansados — respondeu Danute.<br />
— E se tomássemos banho?<br />
— Toma tu. Nós queremos procurar âmbar.<br />
— Bem, procurai lá. Se voltarmos de mãos a abanar, a mãe vai troçar de nós.<br />
O pai de Danute tirou a camisa, as calças e ficou em calções de banho. Entretanto, Romas começou a mexer em mais um montículo de algas. De repente, qualquer coisa brilhou entre a verdura das plantas. Não acreditou no que via: entre vários seixos polidos pelo mar, cintilava uma pedra transparente do tamanho de uma caixa de fósforos.<br />
— Que grande! — exclamou Danute, extasiada. — Papá, papá! Olha para isto!<br />
— Isto sim, é uma pedra! Que rica! — disse o pai, acenando a cabeça de admiração.<br />
Rolando o seu achado na palma da mão, Romas examinava-o de todos os lados.<br />
— Que beleza! — suspirou com inveja Danute, e afagou ao de leve a pedra.<br />
— Toma — disse Romas estendendo-lha.<br />
Danute levantou os olhos para o pai, como se lhe pedisse aprovação. Romas insistiu:<br />
— Pega! Não tenho pena, pois encontrarei outra.<br />
— Hoje? — perguntou Danute.<br />
— Talvez da próxima vez, mas encontrar, isso encontrarei! Pega, por favor. — E, quase à força, meteu-lhe a pedra na mão.<br />
— Obrigada — balbuciou a petiza, sem acreditar na sua sorte.<br />
— Sabes — disse o pai dele, em tom grave — não encontrei muitos rapazes tão bons como tu! — Deu uma palmada no ombro de Romas e correu para a água.<br />
Quando já estava um pouco afastado, mergulhou. Demorava a vir à superfície, e Danute começou a inquietar-se. Por fim, o pai voltou à tona e nadou para a praia. Gritava qualquer coisa, mas as ondas não deixavam ouvir. Quando já estava mais próximo, as crianças ouviram-no dizer:<br />
— Correi aqui! Apanhei um peixinho dourado! Pede que o deite ao mar.<br />
Tinha as mãos juntas e mergulhava-as continuamente na água. Os jovens entraram a correr no mar, o pai mostrou-lhes o peixe.<br />
— Na verdade, é dourado! — exclamou Danute.<br />
— Então, filha, formula um desejo, depressa. O peixinho satisfará qualquer um.<br />
— Quero uma boneca que fale. E feche os olhos — desabafou Danute.<br />
— E tu, Romas, qual é o teu desejo mais íntimo?<br />
O pai voltou a tirar as mãos da água e aproximou-as de um ouvido.<br />
— Estão a ouvir? Diz que fará tudo se o soltarmos.<br />
Romas lançou-lhe um olhar desconfiado, mas pediu timidamente:<br />
— Talvez, uma bola&#8230; Na nossa loja há bolas assim, de borracha, vermelhas. São muito boas para jogar futebol!<br />
— Acham que o peixinho nos vai enganar? — perguntou o pai da Danute, libertando o peixe na água.<br />
— Não, não nos enganará! — garantiu ela, batendo com as mãos na água.<br />
Romas, porém, não acreditava muito. Duvidava que fosse possível apanhar um peixe daqueles naquele sítio. Porque é que o pai e os outros pescadores nunca o tinham visto? Teria vindo de mares longínquos? Tinha de perguntar ao irmão Mykolas se existiam peixinhos dourados. O irmão sabia de certeza: tinha sido pescador numa traineira e apanhado toda a espécie de peixes.<br />
Quando lhe perguntou, Mykolas respondeu, com ar sério:<br />
— Então não há? Nunca tinhas ouvido falar disso? Um velho apanhou um peixinho dourado e este disse-lhe com voz humana: «Ó velho, deita-me ao mar!&#8230; Recompensar- te-ei cumprindo qualquer desejo teu». Portanto, se o vosso peixinho era dos verdadeiros, espera um pouco!<br />
De manhã, mal Romas abriu os olhos, viu a mãe junto à cama, que lhe disse:<br />
— Levanta-te! Olha o que encontrei perto da porta!<br />
Era uma bola! Não de borracha, mas das autênticas, de couro. Nem na loja havia bolas daquelas! Só na cidade.<br />
— Foi o peixinho, de verdade?&#8230; — sorriu, ainda desconfiado.<br />
— Claro.<br />
— E Danute, recebeu alguma coisa?<br />
— Uma boneca. Que fala e fecha os olhos.<br />
— Ora vejam!<br />
Romas estava muito contente. Aliás, sabia quase de certeza quem lhe dera a bola, mas não queria fazer perguntas sobre isso. Que pensassem que foi o peixinho!</p>
<p style="text-align:right;">Viktoras Miliūnas<br />
<em>Voa, gaivota, voa</em><br />
Edições Ráduga Moscovo, 1987</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/79/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/79/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/79/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=79&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Morangos</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 21:14:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Europa]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>
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		<description><![CDATA[Morangos Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho? Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se: — Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde. Na mão segurava um frasco com o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=78&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Morangos</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho?<br />
Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:<br />
— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.<br />
Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.<br />
Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns morangos.<br />
— Prova. Os vermelhos já os comi.<br />
Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:<br />
— Posso ir convosco?<br />
— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.<br />
Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias. Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia- se. Era uma boa amiga. Nada que se assemelhasse à Ruta.<br />
Depois de provar os morangos, Danute disse:<br />
— Que doces! Bem gostaria de comer mais!<br />
— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada — prometeu Romas.<br />
Isto foi ontem. Hoje&#8230; Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este fugiu à resposta:<br />
— Que morangos?!<br />
— Vilius disse que íeis hoje&#8230;<br />
— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!<br />
— Mas eu prometi a Danute&#8230;<br />
— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!<br />
Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio. Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:<br />
— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos. Deixa alguns para a gente! — e soltou uma gargalhada.<br />
Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota está doente e eu falto à minha palavra!&#8230; Não tenho vergonha na cara!»<br />
Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho, pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.<br />
Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia. Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais dura. E tinha que andar muito&#8230;<br />
Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho aeródromo, no lugar soalheiro&#8230;<br />
O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.<br />
Nesta língua de areia encravada no mar crescem amieiros e bétulas e as suas clareiras estão sempre cheias de morangos.<br />
Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver apenas a ponta branca do rabo.<br />
— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!<br />
A lebre, porém, não se deteve, ou porque não o ouviu ou porque, de tão assustada, nada compreendeu.<br />
Na clareira por trás do amial os morangos ainda não estavam maduros. Alguns estavam rosados só do lado do sol. O resto das bagas estavam ainda duras e não tinham sabor. Eram tantas, mas todas verdes.<br />
O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de bétulas e desembocou numa outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não, primeiro, vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.<br />
Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira&#8230; Quando encheu o cesto, cobriu os morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.<br />
Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.<br />
Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada. Para tranquilizá- la, o avô disse:<br />
— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que faz nunca se perde! Então, o que trazes aí?<br />
— Morangos.<br />
— Não pode ser! É ainda cedo.<br />
— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!<br />
— Deixa ver. Que lindos!<br />
— São para Danute!<br />
— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.<br />
— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.<br />
— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse: — Tenho tanta fome!<br />
Danute, abraçada ao cesto, disse:<br />
— Assim que comer isto, fico boa!<br />
Entretanto, Ignas espreitou pela janela.<br />
— É verdade que o Romas&#8230;? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do cesto.<br />
No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá- los para irem aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol, ninguém sabia onde se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:<br />
— Chama o Romas!<br />
Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:<br />
— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.<br />
— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivésseis procurado no sítio certo.<br />
— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta&#8230;<br />
— Mas eu encontrei!<br />
Vilius piscou o olho e resmungou:<br />
— Não sei onde os encontraste, mas o certo é que não foi na Grabchto! Não me esquecerei desta tua mentira. Percebeste?<br />
Teria mesmo mentido? Simplesmente encontrara uma clareira batida pelo sol…</p>
<p style="text-align:right;">Viktoras Miliūnas<br />
<em>Voa, gaivota, voa</em><br />
Edições Ráduga Moscovo, 1987</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/78/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/78/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/78/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/78/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=78&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ali, o burrinho de Sidi Mohammed</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 21:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[fábulas]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>
		<category><![CDATA[magrebe]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>

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		<description><![CDATA[Ali, o burrinho de Sidi Mohammed Ainda há pouco a enorme duna fulgia de vermelho mas agora, com o sol a subir cada vez mais alto, brilha amarela-dourada. Ali, o burro, mal repara que as dunas mudam de cor. Só dá conta de que o sol está a bater-lhe outra vez nas costas, cada vez [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=77&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Ali, o burrinho de Sidi Mohammed</strong></p>
<p align="justify">Ainda há pouco a enorme duna fulgia de vermelho mas agora, com o sol a subir cada vez mais alto, brilha amarela-dourada. Ali, o burro, mal repara que as dunas mudam de cor. Só dá conta de que o sol está a bater-lhe outra vez nas costas, cada vez mais quente, agora até demasiado! Por volta do meio-dia ia aquecer ainda mais.</p>
<p align="justify">Ali detesta a duna. Detesta o sol que incide nela e aumenta a luz e o calor. Só quando está deitado à sombra da palmeira durante a pausa do meio-dia é que Ali gosta do sol. Deita-se numa ilha fresca que paira numa concha de luz amarela do oásis. Vê como no começo do ano a cevada se ergue amarela-dourada entre as palmeiras e, no Verão, espreita as tâmaras na copa das palmeiras. No entanto, os intervalos de descanso numa ilha fresca acabam demasiado depressa.</p>
<p align="justify">Ali põe um casco à frente do outro. As suas pegadas são imediatamente preenchidas até meio pela areia que desliza. Às costas leva pendurado, à direita e à esquerda, dois cestos, dois quais vão escorrendo duas tiras amarelas-doiradas, areia que o vento arrastou para as plantas do oásis. Ali carrega essa areia de volta para o outro lado da crista da duna.</p>
<p align="justify">Atrás de Ali segue Sidi Mohammed. Sidi Mohammed não leva nenhum cesto mas um pau, em parte para se apoiar quando fica cansado e para espicaçar Ali, quando ele fica cansado. Como Ali detesta a duna, cansa-se com mais frequência do que seria necessário e Mohammed bate-lhe com o pau nas costas. Por volta do meio-dia, contudo, Ali fica realmente cansado. As pegadas parcialmente cobertas de areia dançam-lhe à frente dos olhos e ele detesta não só a areia e o sol como também Sidi Mohammed, que não lhe concede ainda descanso algum.</p>
<p align="justify">“Espera”, pensa Ali. “Espera! Um dia ainda fujo de ti! Depois carregas tu a areia às costas e bates no teu próprio traseiro quando andares devagar.”</p>
<p align="justify">Ali já tem três anos e é um burro adulto mas ainda não viu nada do mundo, para além das palmeiras de Sidi Mohammed e, acima delas, o céu.</p>
<p align="justify">Durante o intervalo do meio-dia, Ali não olha para as tâmaras maduras. Perdido nos seus pensamentos, vai arrancando umas ervas e esfrega as costas contra uma palmeira. Isto é exactamente o mesmo que o coçar da cabeça de Sidi Mohammed. “Esta noite!”, pensa Ali. “Esta noite vou fugir daqui!”</p>
<p align="justify">Pelo lusco-fusco, Sidi Mohammed senta-se encostado contra a cabana. Assim que o sol desaparecer atrás da orla da duna, vai ficar mais fresco. Ali anda a pastar debaixo das palmeiras. Assim que fica escuro, o dono estala a língua. Ali acorre obedientemente e desaparece no interior do tabique.</p>
<p align="justify">O estábulo de Ali, feito de tábuas, é ao lado da cabana de Sidi Mohammed e a porta abre para fora. Ali espera até que tudo esteja silencioso, depois levanta-se e força a cabeça pela frincha da porta. Sidi Mohammed tinha deixado a caixa de pé contra a porta. Esta cai no chão de areia. Cheio de medo, Ali espera uns momentos antes de meter o corpo pela frincha da porta. Nada, está tudo calmo!</p>
<p align="justify">As estrelas brilham tão claras que Ali consegue ver as pegadas na areia sem dificuldade. Não sabia que, de noite, as dunas eram tão frias. O ar também é frio. Ali está cheio de frio mas, sem os cestos, faz a subida rapidamente.</p>
<p align="justify">Na crista da duna volta-se mais uma vez. No fundo da duna, vê as folhas das palmeiras pretas e uma ponta da cabana de Sidi Mohammed. À frente dele, estende-se o deserto, o mundo onde Sidi Mohammed não manda.</p>
<p align="justify">E agora, para onde deve ir? Ali quer seguir sempre em frente, mas em que direcção?</p>
<p align="justify">Quando, ao fim de muito tempo, a orla do céu começa a clarear e depois o sol se levanta muito depressa, Ali ainda está a caminhar sem ter visto uma palmeira. Não consegue deixar de pensar no poço de água do oásis. Mas a água, agora, está muito longe.</p>
<p align="justify">Terá seguido na direcção errada? Talvez os oásis, as palmeiras, os pastos dos camelos e os poços de água sejam na direcção do pôr-do-sol. Será melhor voltar para trás? Ali não sabia que também se fica cansado e triste sem cestos de areia.</p>
<p align="justify">As dunas seguem-se umas atrás das outras, todas iguais, como se Sidi Mohammed estivesse a rir-se dele. De repente, Ali dá de caras com um animal sentado, imóvel, na areia. Tem uma cauda espessa, orelhas grandes e pêlo amarelo-claro.</p>
<p align="justify">— Quem és tu? — pergunta Ali. — Eu sou Ali, o burro de Sidi Mohammed.</p>
<p align="justify">O desconhecido olha-o de olhos arregalados de espanto, olhos espertos, e responde:</p>
<p align="justify">— Que és um burro, eu sei. Mas és um burro palerma porque não sabes que eu sou um feneco, uma raposa do deserto.</p>
<p align="justify">Ali está zangado mas como há horas que não encontra nenhum ser vivo, não deixa transparecer nada. Talvez o feneco possa ajudá-lo!</p>
<p align="justify">— O que estás aqui a fazer? — pergunta Ali.</p>
<p align="justify">— Ando por aqui a vaguear.</p>
<p align="justify">— Também andas à procura de um novo dono?</p>
<p align="justify">— Eu não tenho dono, sou livre!</p>
<p align="justify">— E quem te dá água e comida? Não vejo por aqui uma única folha de erva!</p>
<p align="justify">— És mais burro do que o que eu pensava! Não sabes que todos os animais livres têm de tratar de si? Sou eu que caço as minhas presas e eu mesmo procuro as nascentes de água. Dá-te por contente por eu não apreciar carne de burro!</p>
<p align="justify">— Eu não caço. Prefiro pasto de camelo! — explica Ali gravemente. — Erva é o melhor que podes imaginar! Água dá-me o novo dono que vou procurar.</p>
<p align="justify">— Aqui não há dono nenhum! — disse a raposa. — Nem erva nem água. Só areia!</p>
<p align="justify">— Onde é que há água?</p>
<p align="justify">— Isso depende. Se seguires em direcção ao nascer do sol, tens ainda um dia e uma noite pela frente. Se fores em direcção ao pôr-do-sol, tens meio dia e chegas a um oásis com erva suculenta e água doce. Era o melhor para ti.</p>
<p align="justify">— Para aí não quero ir! — atalha Ali rapidamente. — Até hoje andei lá a carregar areia às costas até à crista da duna! Já estou farto, quero ser livre como tu!</p>
<p align="justify">— Livre? Então também tens de ser tão rápido como eu e igualmente corajoso. Não podes ter medo da sede nem da fome, o calor e o frio não podem incomodar-te. Tens de amar o vento e a areia, tens de evitar os oásis para não seres apanhado pelos homens. E, além disso, precisas de um pêlo diferente. Os animais livres têm um pêlo amarelo cor-de-areia como sinal de adorarem o deserto, mas tu tens um pêlo parecido com pó de argila.</p>
<p align="justify">Ali fica abatido. Não tinha imaginado que a vida em liberdade fosse tão difícil.</p>
<p align="justify">— Queres ser o meu dono — perguntou após uma longa pausa — queres mostrar-me como posso tornar-me livre?</p>
<p align="justify">— Não quero contrariar-te — respondeu a raposa — mas acho que foste criado para o oásis. Quem nasceu para o deserto sabe sempre o que quer. Tu tens muitas perguntas. No teu lugar, eu regressaria para Sidi Mohammed. Eu tornar-me-ia útil para que ele gostasse que eu morasse no oásis dele.</p>
<p align="justify">— Eu sou muito útil! — explicou Ali com orgulho. — Sem mim, o oásis há muito que estaria enterrado na areia e não haveria mais tâmaras doces. Sidi Mohammed vai ficar triste por eu ter fugido.</p>
<p align="justify">— E que mais queres? Não é belo transformar a tristeza em alegria? Volta para trás, eu acompanho-te. Tu agradas-me muito, embora sejas um burrito.</p>
<p align="justify">E foi assim que o burro e a raposa se puseram a caminho de poente, um com o pé leve, o outro com o coração pesado… pois Ali vai a pensar no pau de Sidi Mohammed.</p>
<p align="justify">Mas como Alá também ama os animais, enviou um sonho a Sidi Mohammed. Este carrega uma jeira de madeira sobre os ombros de onde pendem, à direita e à esquerda, um cesto de areia. Devagar, um pé à frente do outro, Sidi avança, ofegante, pela duna acima. O calor do dia é quase tão pesado como a areia que leva às costas. Atrás dele segue Ali. De cada vez que Ali se impacienta, bate com o focinho nas costas de Sidi Mohammed de tal maneira que o pobre quase cai para a frente. Sidi Mohammed acorda completamente destroçado.</p>
<p align="justify">Quando, pela manhã descobre que Ali fugiu, não fica furioso mas triste. Triste consigo mesmo porque, sem a ajuda de Ali, o bonito oásis ficará soterrado na areia. Sidi Mohammed não tem um camelo e, a pé, não pode ir buscar o burro. Só pode esperar que Ali volte de livre vontade.</p>
<p align="justify">O sol já está a pôr-se quando os dois amigos tão diferentes chegam ao seu destino.</p>
<p align="justify">— Adeus! — diz a raposa. — Não posso acompanhar-te mais longe. Estive a pensar em ti. Não é vergonha nenhuma trabalhar no oásis. Quem trabalha é útil e, ao mesmo tempo, valente como os animais livres. Se quiseres, podemos ficar amigos!</p>
<p align="justify">— Adeus! — diz Ali, a pensar novamente no pau de Sidi Mohammed.</p>
<p align="justify">A raposa vai embora. As patas calcam a areia como uma fiada de pérolas.</p>
<p align="justify">Ali inicia a descida até ao fundo do oásis, muito lentamente. Quando chega às palmeiras, já é está quase escuro. Sidi Mohammed está sentado encostado à cabana. Levanta-se de um salto. “O pau!” pensa Ali, muito assustado. “Ele vai buscar o pau à cabana!” mas Sidi Mohammed não vai buscar o pau. Em vez disso, corre ao encontro de Ali e coça-lhe a cabeça atrás da orelha.</p>
<p align="justify">— Seu desertor! — diz ele. — Ainda bem que voltaste!</p>
<p align="justify">Ali, de pé, está muito quieto e sente-se o mais feliz dos burros. E antes de correr para o poço para finalmente voltar a beber, esfrega a cabeça, agradecido, na túnica de Sidi Mohammed.</p>
<p style="text-align:right;">Hannelore Bürstmayr<br />
<em>Grün wie die Regenzeit</em><br />
Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986<br />
Tradução e adaptação</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/77/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/77/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/77/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=77&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O dragão azul e o dragão amarelo</title>
		<link>http://interculturalidades.wordpress.com/2008/05/08/o-dragao-azul-e-o-dragao-amarelo/</link>
		<comments>http://interculturalidades.wordpress.com/2008/05/08/o-dragao-azul-e-o-dragao-amarelo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 08 May 2008 21:03:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[filosofia de vida]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>
		<category><![CDATA[oriente]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<category><![CDATA[tradições/usos/costumes]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>

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		<description><![CDATA[O dragão azul e o dragão amarelo No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez se vira. Convocou o pintor mais célebre do império que vivia numa gruta longe da cidade. O artista dirigiu-se [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=76&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>O dragão azul e o dragão amarelo</strong></p>
<p align="justify">No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez se vira.</p>
<p align="justify">Convocou o pintor mais célebre do império que vivia numa gruta longe da cidade.</p>
<p align="justify">O artista dirigiu-se imediatamente à corte e o imperador deu-lhe a conhecer o seu propósito: no biombo da sala do trono deviam figurar dois dragões, um azul e outro amarelo, para simbolizarem o poder do Império e a paz que tinha caracterizado o seu tempo de reinado. O pintor fez uma vénia e respondeu que pintaria dois dragões em seda preta, mas com uma condição: para o biombo ser tão belo como era vontade do imperador, precisava de um tecido de seda, mas a seda teria de ser mais fina do que todas as sedas alguma vez tecidas.</p>
<p align="justify">— Vou retirar-me para a minha gruta — acrescentou o pintor — até que a seda seja tecida; assim terei tempo de me preparar para fazer a pintura dos dragões.</p>
<p align="justify">Em seguida, o pintor abandonou a corte e regressou à sua gruta, começando logo a trabalhar.</p>
<p align="justify">O imperador ordenou que começassem imediatamente a fabricar a mais fina das sedas que alguma se vira.</p>
<p align="justify">Mas o fabrico foi muito mais difícil do que o imperador imaginara.</p>
<p align="justify">Primeiro, foi preciso escolher meticulosamente os bichos-da-seda, porque os que até então tinham sido criados não podiam secretar uma seda assim tão fina como a que o pintor pedira.</p>
<p align="justify">Os bichos-da-seda, tão cuidadosamente escolhidos, exigiam uma alimentação particularmente delicada, e as folhas da amoreira com que eram alimentados deviam ser seleccionadas com o máximo cuidado.</p>
<p align="justify">Apesar de todas as precauções, apenas alguns dos casulos sobreviveram.</p>
<p align="justify">Muito tempo decorreu até se conseguir um número suficiente de casulos para obter a quantidade de seda necessária para o biombo do imperador.</p>
<p align="justify">Mas, naquele momento, surgiu uma nova dificuldade: a seda era tão fina, que muito poucos tecelões se mostravam capazes de a tecer. Foi preciso apelar aos melhores artesãos do império.</p>
<p align="justify">Por fim, ultrapassou-se esta dificuldade e a seda destinada ao biombo acabou por ser tecida. Não havia memória de uma seda tão fina. O imperador ordenou que fosse pregada numa moldura de marfim.</p>
<p align="justify">Concluído o trabalho, o imperador enviou um mensageiro avisar o pintor de que a seda estava tecida e de que devia sem demora pintar os dragões.</p>
<p align="justify">O pintor pediu ao mensageiro que dissesse ao imperador que ainda não tinha acabado de preparar o seu trabalho e pedia-lhe que esperasse.</p>
<p align="justify">O imperador, que já tinha esperado muito tempo até ser tecida a seda, não escondeu a sua decepção, mas lá acabou por compreender que o pintor queria preparar uma obra-prima, e esperou. Contudo, sempre que passava diante do biombo, perdia a paciência.</p>
<p align="justify">Um dia, não aguentando mais, enviou um mensageiro para lembrar ao pintor a sua promessa. Este mandou dizer que, para aceder ao pedido do imperador, ainda não seria capaz de pintar dragões dignos do mais belo biombo algum dia visto. Precisava, dizia ele, de continuar com os seus ensaios e pediu um novo prazo.</p>
<p align="justify">O imperador, apesar da impaciência, não teve outro remédio senão esperar. Mas o tempo ia passando e o pintor não dava sinais de vida. E, sempre que o imperador passava diante do biombo inacabado, sentia crescer a sua irritação.</p>
<p align="justify">Um dia, no limite da paciência, enviou um mensageiro, ordenando-lhe que trouxesse o pintor à corte, a bem ou a mal.</p>
<p align="justify">O pintor aceitou finalmente acompanhar o mensageiro.</p>
<p align="justify">Quando chegou diante do imperador, disse-lhe que já se sentia capaz de pintar os dragões. O imperador manifestou a sua alegria.</p>
<p align="justify">O artista mandou que lhe trouxessem tinta amarela, tinta azul e dois grandes pincéis, e aproximou-se do biombo.</p>
<p align="justify">De uma pincelada, fez um traço amarelo; depois, outra pincelada, e fez um traço azul.</p>
<p align="justify">Em seguida, pousou os pincéis e declarou que o trabalho estava concluído.</p>
<p align="justify">Mal soube da notícia, o imperador, feliz por pensar que o mais belo biombo alguma vez visto iria finalmente ornamentar a sala do trono, precipitou-se para admirar a obra de tão célebre pintor.</p>
<p align="justify">Quando chegou diante do biombo, nem acreditava no que os seus olhos viam: apenas dois traços grossos, um azul e outro amarelo.</p>
<p align="justify">Convencido de que o pintor tinha querido troçar dele, ficou furioso. Com toda a calma e um ar muito sério, o pintor disse que aqueles dois traços eram fruto de longos estudos levados a cabo durante anos e anos.</p>
<p align="justify">Em seguida, fez uma vénia e quis retirar-se. Mas o imperador, fora de si e sempre convicto de que o pintor fizera uma brincadeira de mau gosto, que tinha estragado irremediavelmente a maravilhosa seda cujo fabrico levara tanto tempo e tinha exigido tanto cuidado, mandou prendê-lo.</p>
<p align="justify">O imperador estava de tal modo encolerizado, que não pregou olho naquela noite. Na escuridão, os dois traços, o azul e o amarelo, passavam e voltavam a passar diante dos seus olhos. Quando fechava as pálpebras, iam e vinham e pareciam ganhar dimensão e mover-se. Para seu grande espanto, aqueles dois traços transformavam-se em dragões a lutar. E os dragões eram rápidos e possantes. O que mais o surpreendeu, é que pareciam ter vida e mover-se, eram leves e fortes ao mesmo tempo, e aquela força, aquele poder e aquela grandeza e leveza estavam resumidas nos dois traços que o pintor tinha traçado na maravilhosa seda.</p>
<p align="justify">Depois de uma noite em branco e de ter admirado os dois dragões que o pintor simbolizara, o imperador decidiu ir descobrir o segredo do artista que tinha conseguido uma tal obra-prima.</p>
<p align="justify">De madrugada, mandou selar o cavalo e, acompanhado pela sua guarda de honra, partiu em direcção à gruta onde o pintor trabalhara muitos anos antes de pintar os dois dragões no biombo.</p>
<p align="justify">A tempestade dificultou-lhes o caminho; a neve, o vento e o nevoeiro obrigaram-nos a voltar atrás. Mesmo assim, o imperador ordenou que se fizessem de novo ao caminho. Ao fim de vários dias e noites de viagem, chegaram à gruta do pintor. Acenderam as tochas. Ao entrar, o imperador viu dois dragões pintados nas paredes: um era azul e o outro amarelo.</p>
<p align="justify">Estavam desenhados com a maior exactidão, distinguia-se cada escama, cada dente, e as narinas lançavam fogo. Cada pormenor era azul e amarelo.</p>
<p align="justify">Por baixo da pintura estava uma data: a do dia em que o imperador tinha pedido ao pintor para começar a pintar o mais belo biombo alguma vez visto.</p>
<p align="justify">Ao lado desta pintura, uma outra, a de dois dragões, um azul e outro amarelo. Ao lado desta segunda pintura, uma terceira, depois uma quarta, uma quinta, uma sexta…</p>
<p align="justify">Todas as paredes da gruta estavam cobertas de pinturas que representavam dois dragões, um azul, outro amarelo. Todas as imagens estavam datadas, ano após ano.</p>
<p align="justify">À luz das tochas, o imperador não conseguia despregar os olhos do trabalho árduo do pintor.</p>
<p align="justify">As imagens sucediam-se às imagens, os esboços aos esboços.</p>
<p align="justify">Mês após mês, o pintor ia simplificando a pintura dos dois dragões, um azul e outro amarelo. Depois de uma longa sequência de dragões, o pintor traçara finalmente nas paredes da gruta os dois traços, um azul, outro amarelo, que pintara no biombo.</p>
<p align="justify">Naquelas duas últimas imagens estava resumida toda a potência dos inúmeros dragões que o pintor desenhara durante muitos anos nas paredes da gruta.</p>
<p align="justify">O imperador reconheceu os dois dragões do biombo e deu-se conta de que as duas últimas imagens não podiam de modo nenhum comparar-se às que as precediam.</p>
<p align="justify">Ao olhar para as pinturas, o imperador começou por ficar admirado, depois foi ficando cada vez mais alegre, até sentir, no final, um imenso júbilo.</p>
<p align="justify">Depois de ter observado por uma última vez os dois traços azul e amarelo, deu ordem imediata de selar os cavalos, pois queria regressar à capital. Tinha pressa de mandar libertar o pintor para o honrar e lhe agradecer, porque este lhe tinha permitido compreender o poder e o significado dos dois traços, um azul, outro amarelo, que simbolizavam os dois dragões.</p>
<p align="justify">O pintor foi posto em liberdade e o imperador mandou colocar o biombo dos dois dragões na sala do trono.</p>
<p style="text-align:right;">Ré e Philippe Soupault<br />
<em>Dragon bleu — Dragon jaune</em><br />
Paris, Père Castor Flamarion, 1995<br />
Texto traduzido e adaptado</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/76/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/76/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/76/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/76/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=76&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Leïla</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 20:59:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
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		<description><![CDATA[Leïla Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-lhe Leïla – a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=75&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Leïla</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-lhe Leïla – a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não sabe como acalmar a natureza selvagem da filha.<br />
Leïla tem seis irmãos. Slimane é o mais velho. É o filho preferido do xeque Tarik. Só ele sabe como acalmar Leïla quando ela se irrita, quando se exalta. Só ele a faz rir quando está sombria e triste. Todos os dias, Leïla acompanha Slimane através do oásis.<br />
Certa manhã, quando as últimas estrelas se extinguiram, Slimane deixou o acampamento. Montou o cavalo do xeque Tarik e atravessou o deserto, procurando novas pastagens. Lá do alto de uma duna, Leïla e o pai acenam a Slimane que se afasta.<br />
Os dias passam e Slimane não regressa.<br />
Tarik parte à procura do filho. Avança de duna em duna, de oásis em oásis. Leïla acompanha-o.<br />
Os pastores dizem-lhes que viram o cavalo branco, no horizonte, mas que este não levava cavaleiro algum.<br />
Os mercadores, com os seus camelos carregados de mercadoria, falam dos grandes espaços que atravessaram. Dizem a Tarik:<br />
— Só Alá sabe onde se encontra o seu filho.<br />
Então, Tarik compreende que o filho foi engolido pelas areias, como já acontecera a tantos Beduínos.<br />
Tarik diz a Leïla que não voltará a ver Slimane. Leïla chora e grita. Ninguém pode levar-lhe o seu irmão, nem mesmo Alá! Por fim, Tarik consegue acalmá-la. Regressam, vagarosamente, ao acampamento. Tarik fica em silêncio. Durante vários dias, permanece sentado na entrada da tenda, não tocando sequer nas deliciosas refeições que lhe oferecem os seus servidores.<br />
Leïla vagueia pelo oásis, como cega.<br />
Ao fim de sete dias, Tarik sai da tenda. Junta o seu povo e diz-lhe:<br />
— A partir de hoje, qualquer um de vós que pronuncie o nome de Slimane, será severamente punido. Quero esquecer.<br />
O seu olhar era duro e frio. Todos os Beduínos baixaram a cabeça. Sentiam-se mal, mas ninguém ousou falar.<br />
Leïla também ouviu a decisão de Tarik. Mas, apesar disso, todos os dias algo lhe fala de Slimane. Quando vê as crianças a brincar, lembra-se dos jogos que Slimane lhe ensinava. Quando passa pelas mulheres, recorda as histórias que lhes contava Slimane. Ao encontrar os pastores guardando os seus rebanhos, pensa no pequeno cabritinho negro que o irmão adorava.<br />
Em cada recordação, Leïla quer gritar o nome de Slimane.<br />
Mas cala-se. Cada vez se torna mais selvagem e mais violenta. Os Beduínos afastam-se quando ela passa. Sente-se mais só do que nunca.<br />
Um dia, Leïla vê os irmãos fazerem um jogo que Slimane lhes ensinara. Então, sem pensar, diz-lhes:<br />
— Slimane não jogava assim.<br />
Os irmãos detiveram-se de imediato, olhando-a com um ar assustado. Ela tinha rompido o silêncio.<br />
Leïla vai visitar as mulheres à tenda e começa a contar-lhes uma história – uma daquelas que Slimane contava. A mãe de Leïla protestou, angustiada:<br />
— Pára, Leïla, se o teu pai ouve&#8230;<br />
Pouco a pouco, as mulheres foram-se calando para ouvir, sorrindo e de ar sonhador, a história de Leïla. Mas esta apercebe-se do ar inquieto da mãe. Queria fazer-lhe compreender&#8230; Mas só conseguiu gritar:<br />
— Tenho de falar dele, tenho!<br />
E sai, correndo.<br />
Leïla vai juntar-se aos pastores da montanha que, ao ouvirem o nome interdito, fogem. Mas Leïla vai atrás deles.<br />
Conta-lhes o amor que o irmão sentia pelo pequeno cabrito negro. Pouco a pouco, os pastores aproximam-se dela. Quanto mais Leïla fala de Slimane, mais ele lhe parece próximo e presente. Agora sente-se em paz. Em breve todos a ouvem, sorrindo. Era como se Slimane vivesse de novo entre eles.<br />
Certa noite, um dos pastores mais jovens aproxima-se da tenda de Leïla. Chama-a:<br />
— Anda, vem ver como o cabrito de Slimane cresceu.<br />
Abre-se o pano da tenda e é Tarik que aparece. O seu olhar é mais gelado do que a aurora do deserto. As suas palavras ferem como o sabre cruel.<br />
— Pastor, proibi que pronunciassem o nome do meu filho. Mas desobedeceste. Expulso-te deste oásis. Não voltes mais.<br />
O pastor afasta-se, chorando. Os Beduínos baixam os olhos em silêncio. Estão infelizes. Têm medo. Afastam-se de Leïla, deitando-lhe um olhar de reprovação.<br />
Leïla queria gritar: “Slimane!”, mas guarda para si as palavras que lhe afloram aos lábios. Sente que a raiva aumenta. Sufoca. A sua paz é destruída. Parece que Slimane se voltou a afastar.<br />
Na manhã seguinte, muito cedo, Leïla decide falar com o pai. Tarik está sentado na tenda, pensativo. Leïla aparece bruscamente à sua frente. Fala em voz baixa e reprimida:<br />
— Não irá roubar-me o meu irmão. Não deixarei que o faça…<br />
Tarik lança-lhe um olhar ameaçador e Leila não lhe dá tempo para falar, continua:<br />
— Consegue ver o rosto de Slimane? Ouve a sua voz?<br />
Tarik fica petrificado de espanto. Diz, tremendo:<br />
— Não, não consigo. Apesar disso, fico horas e horas no deserto.<br />
Os olhos de Tarik enchem-se de lágrimas. Leïla diz-lhe docemente:<br />
— Sei de uma maneira, pai, ouça&#8230;<br />
Então Leïla começa a falar de Slimane. Como ele passeava com ela e o que falava; como brincava e o que contava. Como a acalmava ou a fazia rir quando ela se irritava. Fala-lhe de alegria, de ternura e de vida&#8230; Quando acaba, diz:<br />
— Pai, já consegue ver-lhe o rosto? Ouve agora a sua voz?<br />
Tarik baixa a cabeça e, pela primeira vez desde há algum tempo, sorri.<br />
— Está a ver — murmura Leïla — Slimane pode ainda viver entre nós.<br />
Tarik fica sonhador, por algum tempo. Depois, volta-se para Leïla:<br />
— Diz ao meu povo que venha juntar-se aqui.<br />
Quando os Beduínos se reúnem em volta de Tarik, este declara:<br />
— A minha filha Leïla soube trazer-me de volta o meu filho Slimane. Por isso, daqui em diante, chamar-lhe-eis Leïla — a mais sábia. Quero que o seu nome e o de Slimane sejam honrados em todos os acampamentos do deserto.<br />
Dias mais tarde, o jovem pastor regressou ao oásis.<br />
E Slimane viveu de novo no coração de todos aqueles que dele se recordavam.</p>
<p style="text-align:right;">Sue Alexander<br />
<em>Leïla</em><br />
Porto, Edinter, 1989</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/75/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/75/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/75/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/75/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=75&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A menina do ovo de avestruz</title>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 14:37:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[contos tradicionais]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[A menina do ovo de avestruz Seetetelane era um rapaz pobre. Não tinha terra, nem vaca, nem mulher. Vivia só, na savana. Caçava arganazes para comer. Das pequenas peles fazia a roupa. Um dia, andava ele à caça de arganazes, quando encontrou um ovo de avestruz, o maior que já alguma vez vira. — Que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=74&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>A menina do ovo de avestruz</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Seetetelane era um rapaz pobre. Não tinha terra, nem vaca, nem mulher. Vivia só, na savana. Caçava arganazes para comer. Das pequenas peles fazia a roupa.<br />
Um dia, andava ele à caça de arganazes, quando encontrou um ovo de avestruz, o maior que já alguma vez vira.<br />
— Que sorte! — exclamou Seetetelane. — Até que enfim a sorte chega a alguém tão pobre como eu! Vou levar o ovo para a minha palhota. Vai ficar lá abrigado até vir a época das chuvas.<br />
Arrastou o ovo até à sua palhota e, pelo caminho, ia pedindo que a sorte o não abandonasse e o fizesse feliz.<br />
— Espero bem — exclamava. — Espero que a sorte fique comigo!<br />
Guardou o ovo debaixo do telhado de palha e voltou à caça de arganazes.<br />
Quando regressou muito tarde, viu, para surpresa sua, que a palhota estava arrumada. Em cima da mesa estava um pão acabado de cozer e, ao lado, um jarro com cerveja também fresca.<br />
— Como é possível? — exclamou Seetetelane. — Até parece que passou por aqui alguma mulher! Como nos meus sonhos mais lindos!<br />
Mas, como estava com fome, não pensou mais nisso. Comeu, bebeu, e ficou satisfeito.<br />
No segundo e terceiro dia, aconteceu o mesmo: quando Seetetelane regressava à noite, parecia que uma mulher tinha arranjado tudo com amor. No quarto dia, ao sair para a caça, Seetetelane esqueceu-se do cachimbo na palhota. Voltou atrás e reparou que estava alguém dentro da sua palhota.<br />
Aproximou-se devagar e pôs-se à espreita. Uma rapariga desconhecida, bonita, arrumava a casa, enchia o jarro de cerveja e punha pão fresco no cesto. Quando tudo estava já em ordem, a rapariga ia enfiar-se no ovo de avestruz.<br />
— Não! — gritou Seetetelane e segurou-a pela mão. — Fica aqui! Fica comigo!<br />
Respondeu-lhe a rapariga:<br />
— Tiveste tanta esperança e desejaste tanto, que a sorte veio ter contigo. Fico de boa vontade. Mas nunca poderás censurar-me por ser uma rapariga simples, saída de um ovo de avestruz!<br />
Seetetelane prometeu.<br />
Viveram felizes um com o outro.<br />
Certo dia, Seetetelane disse:<br />
— É bom estar contigo. Mas tenho saudade de estar com outras pessoas com quem possa falar, comer, festejar.<br />
A rapariga pegou num malho, saiu de casa e começou a bater num monte de erva à porta da palhota. Do tufo de erva começaram a sair pessoas, velhos e novos, vacas que mugiam, cães que ladravam.<br />
Seetetelane ao ouvir aquele barulho, saiu da palhota a correr.<br />
— Agora já não tens motivo para te sentires só — disse-lhe a rapariga.<br />
As pessoas saídas do tufo de erva rodeavam Seetetelane.<br />
— Prosperidade e saúde, chefe! — exclamavam eles. Os cães abanavam as caudas.<br />
Seetetelane era agora o chefe da tribo. Já não usava roupas feitas com pele de arganaz mas sim de pêlo macio de chacal, e dormia numa bela esteira. Tinha o suficiente para comer e beber, e tinha pessoas que trabalhavam para ele. Estava muito satisfeito com a vida.<br />
Uma noite, Seetetelane tinha acabado de esvaziar o jarro da cerveja. Levantou-se para chamar a rapariga mas não a viu. Então zangou-se e gritou:<br />
— Onde é que te meteste, rapariga do ovo de avestruz?<br />
A rapariga apareceu e olhou com ar triste para Setetelane.<br />
— Já te esqueceste do que tinhas prometido, Seetetelane?<br />
— Ora… — respondeu ele. Esvaziou a caneca e adormeceu.<br />
No dia seguinte, quando acordou, nem queria acreditar no que os seus olhos viam: estava deitado na sua antiga esteira, com a roupa velha de pêlo de arganaz. O jarro com cerveja, os copos bonitos, o pão, as iguarias, tudo tinha desaparecido.<br />
A rapariga também tinha desaparecido e, com ela, o ovo de avestruz, de onde tinha saído. O vento soprava na erva, em frente da palhota. As pessoas todas, as vacas e os cães que a rapariga lhe tinha oferecido, tinham desaparecido.<br />
Seetetelane levantou-se, triste, e foi procurar o ovo de avestruz. Mas, por mais que procurasse, nunca mais o encontrou.</p>
<p style="text-align:right;">Wilhelm Meissel</p>
<p style="text-align:right;">Lene Mayer-Skumanz (org.)<br />
<em>Hoffentlich bald</em><br />
Wien, Herder Verlag, 1986<br />
tradução e adaptação</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/74/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/74/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/74/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=74&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Tamina, cor do sol</title>
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		<pubDate>Wed, 07 May 2008 11:31:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>

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		<description><![CDATA[Tamina, cor do sol Hoje, o céu desabou sobre o coração de Tamina. À volta dos olhos de azeviche, pairam duas nuvens e, nas faces de ébano, dois pequenos riachos deslizam silenciosamente e pousam nos lábios um beijo com sabor a sal. Tamina corre a refugiar-se atrás do loureiro, ao fundo do jardim. Por detrás [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=73&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Tamina, cor do sol</strong></p>
<p align="justify">Hoje, o céu desabou sobre o coração de Tamina. À volta dos olhos de azeviche, pairam duas nuvens e, nas faces de ébano, dois pequenos riachos deslizam silenciosamente e pousam nos lábios um beijo com sabor a sal. Tamina corre a refugiar-se atrás do loureiro, ao fundo do jardim. Por detrás da folhagem espessa, os ramos abrem os braços para acolherem todos os segredos. Escondida no meio da ramagem, Tamina explica ao arbusto de onde vem este seu desgosto. Ela não compreende por que é que não tem a pele clara das manhãs de Inverno, como as outras crianças.</p>
<p align="justify">O arbusto não sabe o que responder. Conhece bem os amigos de Tamina, que vêm muitas vezes brincar no jardim. Acha que são todos parecidos: as roupas coloridas, os rostos alegres e os olhos travessos. Diferente, talvez apenas a cor da pele, mas não vê em que é que isso poderia ter importância.</p>
<p align="justify">Um melro curioso deslizou por entre a folhagem. Ao esgravatar a terra à procura de algum bichito para comer, de saltinho em saltinho acabou por se aproximar. Tamina reconhece-o, é ele que costuma vir regalar-se com os frutos caídos, debaixo da macieira.</p>
<p align="justify">Em poucas palavras, o arbusto explica-lhe o problema da pequena. O melro declara que, quanto a ele, está totalmente satisfeito com a cor da sua plumagem porque o amarelo do bico sobressai muito mais no preto do que no branco.</p>
<p align="justify">Tamina ficou na mesma. Não tem nenhum bico amarelo para justificar a vantagem de ter a pele negra. E depois, é muito bonito, pensa ela, mas todos os melros são pretos. Se fosse o único melro branco no meio de melros pretos, talvez pensasse de outra maneira!</p>
<p align="justify">A poucos batimentos de asas do local, o pássaro conta à sua amiga pega o que viu e ouviu debaixo do loureiro.</p>
<p align="justify">A pega vai contar ao gaio, o gaio repete-o à gralha-das-torres, a gralha-das-tores presta contas ao corvo, o corvo transmite-o imediatamente à toutinegra.</p>
<p align="justify">Correndo assim de bico em bico, de ramo em ramo e de nuvem em nuvem, o assunto depressa chegou aos ouvidos do sol.</p>
<p align="justify">Com a ponta dos dedos de luz, o sol ergue delicadamente uma folha do silvado, afaga o rosto de Tamina e, uma a uma, bebe todas as pérolas do seu desgosto.</p>
<p align="justify">— Quando vieste ao mundo — diz-lhe o sol — eras linda, tão linda… Acho que eras o bebé mais lindo que a terra algum dia conheceu. Eu passava dias inteiros a olhar para ti mas, de tanto te admirar, a tua pele ficou dourada, tal como acontece com a espiga de trigo. À noite, não conseguia ir deitar-me, mantinha-me na linha do horizonte, porque os meus olhos não eram capazes de te deixar. Quanto mais fixava o meu olhar na tua beleza, mais a tua pele tomava a cor do café. Se eu imaginasse todo o sofrimento que isso viria a causar-te, teria pedido às nuvens que te protegessem. Foi tudo culpa minha, serás capaz de me perdoar?</p>
<p align="justify">Na palma das mãos, Tamina faz uma grinalda de beijos. Pede ao vento que a leve.</p>
<p align="justify">E no rosto de Tamina, um sorriso desenha finalmente a curva da felicidade, porque o segredo da sua cor brilha agora bem dentro do seu coração.</p>
<p style="text-align:right;">Ghislaine Biondi; Laurent Corvaisier<br />
<em>Tamina Couleur Soleil</em><br />
Paris, Hachette Livre/Gautier-Languereau, 2001<br />
Tradução e adaptação</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/73/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/73/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/73/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/73/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=73&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Uma Páscoa atribulada</title>
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		<pubDate>Wed, 07 May 2008 11:17:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>
		<category><![CDATA[tradição judaica]]></category>
		<category><![CDATA[tradições/usos/costumes]]></category>
		<category><![CDATA[trad. judaica]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma Páscoa atribulada Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus e era [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=72&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>Uma Páscoa atribulada</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus e era na Lower East Side que se encontrava a maior comunidade Judaica do mundo. Num modesto apartamento, vivem Ella, de doze anos, Henny, de dez, Sarah, de oito, Charlotte, de seis e Gertie, de quatro anos, com a mãe e o pai, um comerciante de coisas usadas. O dinheiro não abunda, mas a mãe dirige a casa habilmente. Uma casa onde reina a alegria e a harmonia e onde se comemora com seriedade todas as festas religiosas do calendário judaico.</em></p>
<p style="text-align:justify;">– Então, não te levantas? – perguntou Ella.<br />
Era um dia normal de escola e Sarah costumava ser sempre a primeira a levantar-se.<br />
– Não me sinto bem.<br />
– O que é que tens? Dói-te outra vez a garganta?<br />
– Sim, quando engulo. Também me dói a cabeça e sinto o nariz a arder por dentro.<br />
– Pareces estar muito quente. É melhor chamar a mãe.<br />
A mãe não se mostrou muito preocupada. Já estava habituada a que as filhas ocupassem a “cama dos doentes”, como chamavam ao sofá que estava na cozinha. Das cinco irmãs, era Sarah a que lá passava mais tempo. Nessas alturas, e com a ajuda de uns lençóis, a mãe transformava o sofá em cama, e ia ao quarto buscar as doentes. Henny olhava para Sarah com inveja. Detestava ir à escola e estava sempre à espera de que acontecesse alguma coisa que a impedisse de ir.<br />
– Mãe – disse – enquanto a Sarah estiver doente não vais precisar de ajuda?<br />
– Acho que serias mais um estorvo do que uma ajuda, Henny.<br />
Henny foi para junto de Sarah, no sofá.<br />
– Que sorte! Eu também gostava de ficar doente.<br />
– Só dizes isso porque não sabes como é horrível.<br />
A mãe estava atenta a Sarah. Veio junto dela, pôs-lhe a mão na testa e sentiu-a a escaldar.<br />
– Ella – disse – corre à loja do pai ainda antes de ires para a escola e diz-lhe que chame o Dr. Fuchs.<br />
Mergulhou um pano em água fria, torceu-o, dobrou-o em quatro e pô-lo na testa de Sarah.<br />
Quando as outras saíram, Gertie tentou distrair Sarah, mas ela não reagia.<br />
– Deixa-a dormir – disse a mãe. – É o melhor que pode fazer. Anda, podes ajudar-me a tratar das loiças para o <em>Pesach</em> (refeição ritual da Páscoa hebraica e que celebra a fuga do Egipto.) – É já daqui a uma semana.<br />
Só uma semana e havia ainda tanto que fazer!<br />
Durante a festa da Páscoa, que dura oito dias, não se pode comer pão ou outros alimentos feitos com massa levedada. Nos dias anteriores à Páscoa, as famílias judaicas limpam tudo para eliminar qualquer resto de massa fermentada: até as panelas, sertãs e pratos têm de ser substituídos. Cada família judaica crente tem tanta loiça, que mais parece possuir uma loja de loiças. A família tem de ter dois serviços para uso diário, um para o leite e derivados, e outro para os pratos de carne, e ainda mais dois serviços para o <em>Pesach</em>. Isto para não falar da loiça bonita para os dias de visitas.<br />
Quando as meninas voltaram da escola, o Dr. Fuchs estava em casa. Com a sua voz sonora mas simpática, ordenou a Sarah que deitasse a língua de fora e dissesse “aa”. As irmãs e a mãe estavam à sua volta a ver. Quando acabou o exame, o Dr. Fuchs voltou-se para a mãe:<br />
– Parece escarlatina. O melhor é examinar também as outras meninas.<br />
– Escarlatina! – exclamou a mãe.<br />
Escarlatina significava quarentena e isolamento. Significava também que tinha de cozinhar dietas, provavelmente pratos fermentados, e a Páscoa estava à porta. Como iria conseguir conciliar tudo? Mas não deixou transparecer a sua preocupação na presença das filhas, que já estavam em fila diante do médico para serem examinadas.<br />
Henny foi a primeira. Parecia estar bem de saúde. Gertie e Charlotte não aparentavam ter nada. O médico examinou Ella durante mais tempo e, no final, meneou a cabeça.<br />
– Lamento, mas a pequena também tem escarlatina.<br />
– Já era de esperar – respondeu a mãe calmamente. – Dormem juntas na mesma cama.<br />
– Tem de deitar as duas num quarto separado – disse o Dr. Fuchs à mãe. – E tente manter as outras afastadas. Eu torno a passar amanhã e vejo como é que elas estão. Não tenha medo, que vai conseguir ultrapassar tudo isto. Pense que tem um bom médico!<br />
O Dr. Fuchs riu da sua piada para animar a mãe, pegou na mala e saiu, rindo ainda.<br />
Henny tinha agora uma boa desculpa para ficar afastada da escola, mas não estava nada contente com isso. “Quarentena”, pensava. “Nenhuma das minhas amigas pode aproximar-se de mim.” Também não podia chegar perto das duas irmãs nem passar o dia inteiro a brincar com bebés como Charlotte e Gertie!<br />
Embora exteriormente se mostrasse calma e andasse de um lado para o outro como se nada fosse, a mãe estava preocupada. “Mantenha as doentes afastadas das que estão saudáveis”, ordenara o Dr. Fuchs. O melhor era deixar Ella e Sarah dormir no seu quarto e ficar junto delas. As crianças doentes precisam muitas vezes da mãe durante a noite.<br />
Podiam usar a cama desdobrável que tinham para as emergências. O pai podia dormir no sofá da cozinha ou, se não quisesse, dormia na cama de Ella e de Sarah, no quarto das meninas.<br />
A mãe preparou o quarto que ia ser o das doentes por muitas semanas. Depois, vestiu outra roupa, levou as doentes para a cama e tornou-lhes tudo tão confortável quanto podia. Em seguida, voltou a mudar-se e foi para a cozinha.<br />
– Ouviram todas o que o médico disse – explicou então às filhas que não estavam doentes. – Não podem ir nunca ao quarto onde Ella e Sarah estão. Não quero que fiquem também doentes. Henny, leva esta receita à farmácia, por favor. Tens de esperar até que o remédio esteja pronto para depois o trazeres. Dá um salto ao pai, e diz-lhe que as meninas estão com a febre escarlatina. Charlotte e Gertie, vocês vão ajudar-me a arrumar outra vez os pratos. Por ora, não precisamos deles.<br />
– Mãe – perguntou Charlotte – vamos, mesmo assim, festejar a noite de <em>Seder</em> (<em>Seder</em> (hebreu “Ordem”) Refeição de festa da festa das duas primeiras noites da Páscoa)?<br />
– Claro que sim! – respondeu a mãe.<br />
– A Ella e a Sarah já vão estar boas? – perguntou Gertie.<br />
– Não, acho que não. É claro que já vão estar melhor – acrescentou rapidamente – mas vão ter de continuar de cama.<br />
Nessa noite, a mãe foi acordada por um choro abafado. Despertou imediatamente, como sempre acontecia quando uma das filhas precisava dela, e reconheceu a voz de Sarah.<br />
– Não chores – acalmava-a a mãe – que eu estou à tua beira.<br />
– Enxota-o! Enxota-o! – chorava Sarah.<br />
– Sim – respondeu a mãe. – Já o enxotei.<br />
Não fazia nenhum sentido dizer a uma criança a arder de febre que não havia nada para enxotar.<br />
Ella sentou-se na cama e perguntou:<br />
– Está a delirar, mamã?<br />
– Está. Se calhar teve sonhos maus. Daqui a pouco já se acalma.<br />
– Tive um sonho tão mau! – soluçou Sarah. – Uma coisa estava a crescer cada vez mais e eu não conseguia pará-la. Os meus dedos iam ficando cada vez mais inchados, e a cara também. Pensei que ia rebentar. Fiquei tão assustada que chamei por ti!<br />
– Eu estou aqui, não tenhas medo. Volta a adormecer. Eu sento-me à tua beira e mando tudo embora.<br />
Dito isto, a mãe sentou-se na cama de Sarah, no silêncio da noite, segurando-lhe as mãos, até as duas crianças adormecerem. Depois, pousou cuidadosamente a mão de Sarah e voltou para a sua cama.<br />
De manhã, as duas meninas pareciam melhor, embora a cara de Sarah estivesse cheia de manchas vermelhas. Ella achou muita graça à figura da irmã, até ao momento em que se deu conta de que ela própria também tinha manchas na testa e à volta das orelhas.<br />
Mais tarde, veio um funcionário do Ministério da Saúde e afixou na porta da cozinha um selo de quarentena. Charlotte e Gertie iam constantemente lá fora e ficavam a olhá-lo, cheias de respeito.<br />
Nessa tarde bateram à porta.<br />
– Quem é? – gritou a mãe.<br />
– Sou eu, o Charlie. Não tenha medo, que não quero entrar. Só venho para conversar um bocadinho.<br />
A mãe saiu para falar com Charlie, o empregado do marido.<br />
– Como estão a Ella e a Sarah? – perguntou.<br />
– A Sara não passou nada bem esta noite.<br />
– Isto é muito difícil para si – disse Charlie com simpatia. – Há alguma coisa em que possa ajudá-la? Quer que vá comprar alguma coisa?<br />
– Obrigada, Charlie, mas o meu marido já foi hoje às compras.<br />
– Eu trouxe uma coisinha para as doentes, para elas se irem entretendo um pouco. Está a ver o embrulho aí ao canto, ao pé da porta? Sim, é esse – disse, quando a mãe pegou no embrulho. – E não se preocupe demasiado, mãe!<br />
As doentes alegraram-se com o presente. Dentro do embrulho havia duas ardósias pequenas com esponja e uma caixa com giz de cor.<br />
– O Charlie é amoroso. Pensa em tudo – disse Ella.<br />
Os três dias seguintes passaram depressa. O doutor vinha de manhã, examinava as doentes, brincava com as outras, e voltava a sair. Durante o dia, Sarah estava alegre e cheia de vivacidade, e ela e a irmã conversavam muito uma com a outra. Durante a noite, a febre subia e chamavam então pela mãe, que passou mais três noites sem dormir.<br />
Ao pequeno-almoço do quarto dia, esta anunciou:<br />
– Hoje à noite começa o <em>Pesach</em>.<br />
A mãe tinha concluído todos os preparativos. A casa estava a brilhar e os pratos para o <em>Pesach</em> estavam limpos. O Sr. Basch, o merceeiro, tinha amontoado diante da porta uma quantidade de embrulhos com comida especial para o <em>Pesach</em>.<br />
As doentes estavam melhor. As erupções na cara e no corpo estavam a diminuir.<br />
Nessa tarde, Charlotte e Gertie estavam sentadas no sofá da cozinha a fazer desenhos engraçados. As duas meninas tinham estado o dia todo estranhamente sossegadas. Se a mãe não tivesse tanto que fazer, de certeza que teria notado e estranhado mas, como não se dera conta, foi apanhada de surpresa pelas palavras de Charlotte:<br />
– Mãe, sinto-me esquisita. Dói-me tanto a garganta!<br />
E, como se isto não bastasse, Gertie disse também:<br />
– A mim não me dói a garganta, mas sinto-me tão cansada!<br />
– Era engraçado se também apanhássemos a escarlatina – disse Charlotte. – Assim, a nossa casa tornava-se um hospital a sério!<br />
A mãe não achou graça e disse apenas:<br />
– Vamos pedir ao Dr. Fuchs que vos examine também. Ele já deve estar a chegar.<br />
O Dr. Fuchs veio e examinou-as. Não havia dúvida: a mãe tinha mais dois casos de escarlatina para tratar.<br />
Henny foi informar o pai. Quando regressou, já havia quatro camas no quarto das doentes, e Charlotte e Gertie tinham sido metidas na cama. Ella e Sarah deram-lhes as boas vindas efusivamente. Henny, pelo contrário, andava na cozinha de um lado para o outro. Porque é que era a única que não estava doente? Agora é que não tinha mesmo mais ninguém com quem brincar.<br />
A primeira noite de <em>Seder</em> tinha chegado. Que vazia parecia a mesa, só com três talheres! Nos anos anteriores, tinham sido convidados pobres, amigos e parentes! Os copos de cristal brilhantes foram enchidos de vinho: um grande para o pai, um médio para a mãe, e um pequeno para Henny. Um guardanapo imaculado cobria o tabuleiro de <em>Seder</em> que o pai tinha previamente preparado. Na bandeja estavam três pedaços de pão matzo (mão israelita feito sem fermento), símbolo da união, pois todos os Judeus deviam ser irmãos. No canto superior direito da bandeja, o pai tinha posto os ossos do cordeiro da Páscoa, e no canto superior esquerdo, um ovo cozido com casca, ambos símbolo das oferendas que nos tempos antigos eram feitas pelos Judeus e sacrificadas nesse dia sagrado. No centro da bandeja havia rábano picante e ervas amargas. No canto inferior direito, um pequeno recipiente com uma mistura de amendoins, maçãs descascadas e vinho, que representavam a argamassa e os tijolos que os Judeus tinham feito para o faraó do Egipto, há muitos milhares de anos. No canto inferior esquerdo havia um raminho de salsa, símbolo da Primavera e da esperança.<br />
A cadeira do pai e o sofá de couro foram chegados à frente para perto da mesa e forrados com almofadas. Enquanto tomavam a refeição, o pai e a mãe iriam recostar-se neles como se fossem rei e rainha.<br />
Nessa noite, não precisavam de ter medo de que não houvesse <em>Haggadahs </em>que chegassem para todos. <em>Haggadahs </em>são pequenos livros muito finos que remontam a mais de dois mil anos e onde está registada a história do <em>Pesach</em>. Os <em>Haggadahs </em>da família estavam escritos em inglês e em hebraico para as crianças poderem seguir a leitura do pai.<br />
Neste <em>Pesach</em>, a mais antiga e a maior das festas judaicas, que começava com um bonito e colorido festejo, havia quatro meninas doentes, de cama, a chorar, porque não podiam participar totalmente.<br />
O pai vestiu a bata de linho branco, pois desde os tempos antigos que as vestes de festa dos Judeus eram brancas, e parou por um momento em frente da porta do quarto, aberta para as crianças poderem ver o seu aspecto solene.<br />
– Não chorem – pediu-lhes. – Vamos deixar a porta aberta e eu vou ler em voz alta para poderem ouvir-me. Se escutarem com atenção, também estarão a participar.<br />
As doentes enxugaram os olhos e passaram a escutar atentamente, embora nada pudessem ver da celebração.<br />
Lavadas as mãos, fez-se a bênção do vinho, que em seguida foi bebido. O pai voltou a encher os copos e distribuiu pequenos ramos de salsa que todos mergulharam em água salgada e em seguida comeram. A água salgada simbolizava as lágrimas que os Judeus haviam vertido quando eram escravos no Egipto. O pai partiu o segundo matzo e escondeu um pedaço grande entre as almofadas da cadeira. Em todas as noites anteriores de <em>Seder</em>, as filhas tinham-lhe seguido os movimentos com atenção, pois aquela que conseguisse tirar o pedaço de pão sem o pai dar conta recebia deste, como recompensa, o que quisesse. O pai tinha sempre dificuldade de saber quem tinha sido o ladrão, mas esta noite não ia haver dúvidas.<br />
Os <em>Haggadahs </em>estavam abertos e o pai começou a cantar em hebraico: <em>Todos vós, que tendes fome, vinde e festejai, todos vós, que não podeis festejar o Seder, vinde e festejai connosco</em>.<br />
Em breve chegaram à parte da cerimónia em que o filho mais novo da família ou, na ausência deste, a filha mais nova, pedia uma explicação sobre a festa. Gertie ensaiara o seu papel durante semanas, e agora não estava à mesa para poder desempenhá-lo. O pai esperou e, em breve soou, vinda do quarto, a vozinha infantil a cantar, hesitante:<br />
<em>Pai, porque é que esta noite é diferente das outras?<br />
</em>Quando a menina acabou, o pai começou a ler com rapidez. Hoje soava apenas a sua voz mas, nas outras noites de Sedar, cantavam todos os convidados.<br />
A celebração continuava e, enquanto o pai cantava, as páginas eram viradas umas atrás das outras, até que os <em>Haggadahs </em>foram finalmente postos de parte.<br />
Teve início a refeição. Bebeu-se o segundo copo de vinho e voltaram a lavar as mãos. O pai estendeu um matzo e os três deram graças. Comeram as ervas amargas. A mãe trouxe para a mesa uma terrina cheia de ovos cozidos, pois os ovos simbolizavam vida e saúde. Foram mergulhados na água salgada e comidos. Após o primeiro prato, seguia-se sopa de galinha com almôndegas pequenas, feitas de farinha de matzo, depois havia galinha, legumes e fruta cozida a vapor.<br />
Quando a refeição acabou, o pai procurou o pedaço de matzo escondido. Tinha desaparecido. Gertie gritou do quarto:<br />
– Mas vocês prometeram-me que hoje eu podia roubar o <em>afikomen</em> (nome dado ao pedaço de pão matzo que é escondido propositadamente.)! Era a minha vez! E ele agora desapareceu e eu não vou receber nenhuma prenda!<br />
– Não te zangues, Gertie – gritou Henny. – Tenho-o eu! E só o dou ao pai se ele nos oferecer às duas uma coisa!<br />
Os olhos do pai piscavam, divertidos.<br />
– Mas isto é uma violência! – disse. – O que posso oferecer-vos em troca do <em>afikomen</em>?<br />
– Eu quero um tanque de roupa pequenino e uma tábua para poder lavar a roupa das minhas bonecas! – gritou Gertie imediatamente.<br />
– Muito bem. E tu, Henny?<br />
– Oh, eu queria uma moeda de cinco cêntimos. Mas jura-nos que vamos receber as prendas!<br />
O pai prometeu e Henny entregou-lhe o <em>afikomen</em>. O pai partiu um pedaço para cada, como sobremesa, da mesma forma que nos tempos antigos era dado um pedaço do cordeiro da Páscoa a quem entrava no templo.<br />
E era agora altura de abrir a porta ao profeta Elias, que um dia viria anunciar a chegada do Messias. Foi-lhe enchido um copo com vinho, pois dizia-se que na noite de <em>Seder</em> ele ia a todas as casas. Abria-se a porta para que entrasse e bebesse o vinho. As crianças não tiravam os olhos da porta e esperavam vê-lo, ou pelo menos ouvir o barulho das asas ao entrar.<br />
As meninas nunca o viam nem ouviam, mas, de todas as vezes, estavam certas de que havia um pouquinho menos de vinho no copo do que antes de abrirem a porta.<br />
– Pai! – gritaram. – O vinho não diminuiu?<br />
– Sim – respondeu o pai. – Vejo que o profeta Elias esteve aqui!<br />
Henny confirmou:<br />
– De certeza absoluta que esteve aqui.<br />
Já era tarde, as doentes estavam cansadas, por isso todos dispensaram as canções tradicionais. Henny e a mãe arrumaram tudo rapidamente e assim se passou a primeira noite de <em>Seder</em>.<br />
A família tinha-se habituado à ideia de estar completamente só. Para a mãe, os dias haviam sido tão cheios de trabalho, que nem lhe sobrara tempo para pensar. Também tinha desistido de proteger Henny da febre escarlatina. Era esforço em vão, porque mal a mãe virava costas, Henny já estava no quarto das doentes. Além disso, o Dr. Fuchs tinha a impressão de que Henny não era atreita a esta doença, caso contrário já a teria contraído há muito tempo.<br />
O único contacto que a mãe tinha para com o exterior era através da janela. Todos os dias, por volta do meio-dia, tocavam à campainha da porta. A mãe corria à janela da sala para cumprimentar os familiares que nesse dia vinham perguntar como iam as pequenas.<br />
Charlie também batia à porta, dia sim, dia não, perguntava pelas crianças e deixava-lhes qualquer objecto pequeno: algumas folhas de papel de cor, ou uma carta engraçada, que fazia rir as meninas. Uma vez, Charlie trouxe cerejas cristalizadas, que elas adoraram. Outras vezes o pacote-surpresa trazia um brinquedo qualquer ou um jogo de tabuleiro.<br />
– Charlie – dizia a mãe – nunca conheci ninguém que gostasse tanto de crianças! As meninas ficam felizes com os seus embrulhos, agradecem e mandam-lhe cumprimentos. Como podemos agradecer-lhe?<br />
– São coisas sem importância – respondia Charlie embaraçado. – Só quero que as meninas fiquem contentes! – E desapareceu imediatamente pelas escadas abaixo.<br />
Uma vez, o carteiro deixou um grosso envelope castanho que vinha dirigido às crianças. Nunca ninguém lhes tinha mandado nada pelo correio, e mal podiam acreditar que fosse para elas.<br />
Ella abriu-o e retirou um exemplar novinho de uma revista infantil. Trazia presa uma carta, que Ella leu em voz alta. Era de Miss Allen, a bibliotecária, a pedir às crianças que se curassem depressa. Estava com saudades das suas carinhas alegres.<br />
– É tão querida! – disse Sarah. – Gosto tanto dela!<br />
– Todas nós gostamos dela – disse Ella, e a opinião era unânime.<br />
O <em>Pesach</em> chegou ao fim e as meninas curaram-se. Tinha chegado o dia em que a casa iria ser desinfectada e, quando finalmente chegou, o funcionário do Ministério da Saúde foi recebido com vivas e aplausos.</p>
<p style="text-align:right;">Sydney Taylor<br />
<em>Die Mädchenfamilie</em><br />
München, DTV Junior, 1988<br />
Excertos adaptados</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/interculturalidades.wordpress.com/72/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/interculturalidades.wordpress.com/72/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/interculturalidades.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/interculturalidades.wordpress.com/72/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=72&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A árvore que falava</title>
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		<pubDate>Wed, 07 May 2008 11:04:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>contadores.destorias</dc:creator>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia de vida]]></category>
		<category><![CDATA[histórias]]></category>
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		<description><![CDATA[A árvore que falava Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra. Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África. A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=interculturalidades.wordpress.com&amp;blog=3470535&amp;post=71&amp;subd=interculturalidades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><strong>A árvore que falava</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.<br />
Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.<br />
A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…<br />
E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.<br />
Até os homens vinham sentar-se debaixo da árvore no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.<br />
A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.<br />
Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.<br />
Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, a árvore enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.<br />
No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!<br />
E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.<br />
Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.<br />
Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…<br />
Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.<br />
E todos diziam que ela estava morta.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">
Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa, uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.<br />
Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.<br />
Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.<br />
Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.<br />
E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.<br />
Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.<br />
Em conjunto, acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.<br />
É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.<br />
Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.<br />
Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.<br />
Como o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram -lhe sinal que parasse:<br />
― Pequeno homem, nós ajudámos-te ― disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. ― O nosso trabalho deve ser pago.<br />
― Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!<br />
― Deixa-te disso! ― insistiram os homens fortes. ― Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.<br />
― Não pode ser ― protestou o homem. ― É preciso que o tronco fique inteiro para este tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?<br />
Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lho pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:<br />
― O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.<br />
E expeliu uma baforada do seu cachimbo.<br />
Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.<br />
Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.<br />
Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:<br />
― Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.<br />
― Ah, não! É verdade que estamos aqui ― respondeu o Ancião.<br />
— Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.<br />
Expeliu uma outra baforada e calou-se.<br />
Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:<br />
― Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.<br />
O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.<br />
Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.<br />
De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:<br />
― O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.<br />
O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!<br />
De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.<br />
E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.<br />
E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.<br />
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.<br />
― Ah! És tu? ― disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. ― O que queres de mim?<br />
― Se fazes favor, podias emprestar-me o teu podão? ― perguntou muito educadamente o pequeno homem.<br />
― Eh! ― respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. ― Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?<br />
― Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!<br />
― O que me dás em troca?<br />
― Sabes bem que não tenho nada de meu.<br />
― Ah não? E essa árvore? É tua, não é?<br />
― Sim, mas… ― começou o pequeno homem.<br />
― Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.<br />
Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.<br />
Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.<br />
Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.<br />
Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.<br />
De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?<br />
Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.<br />
― Tu, outra vez! ― bocejou o vizinho. ― O que queres?<br />
― Desculpa ― disse o pequeno homem com a sua voz gentil. ― Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.<br />
― Em troca? ― zombou o vizinho. ― Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe. Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear uma fogueira. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.<br />
Foi então pedir aos homens fortes, que faziam uma grande fogueira, a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.<br />
― De acordo, ― disseram eles ― mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.<br />
― Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! ― respondeu.<br />
― Ah sim? E isto, não é madeira? ― perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.<br />
Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.<br />
E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.<br />
Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.<br />
Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em <em>djembé</em>. (<em>Djembé</em> é o nome que se dá a esta espécie de tambor, em África). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.<br />
Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.<br />
― Bom dia ― disse à criança.<br />
― Bom dia ― respondeu ela. ― És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?<br />
― Sim, quer dizer… ― começou ele.<br />
― O que queres de mim? ― interrompeu a criança.<br />
― Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.<br />
― É pena ― disse a rapariga. ― Justamente, também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.<br />
― Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta ― suplicou o pequeno homem.<br />
― Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! ― retorquiu a criança.<br />
E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê-la para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.<br />
Só faltava levá-la ao curtidor.<br />
Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não teriam querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.<br />
Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.<br />
― Mas já não há nenhuma árvore! ― lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!<br />
― De acordo ― concluiu o curtidor. ― Contentar-me-ei com um bocado do tambor.<br />
E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no <em>djembé</em>.<br />
Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.<br />
Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um <em>djembé</em> tem de ser sólida.<br />
Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.<br />
O pequeno homem regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.<br />
Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e a coragem voltou-lhe. Depressa a pele de cabra foi colocada no <em>djembé</em>, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.</p>
<p style="text-align:center;">
* * *</p>
<p style="text-align:justify;">O homem olhou para o seu <em>djembé</em>, finalmente pronto! Claro que era um <em>djembé</em> muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo <em>djembé</em>: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, o homem quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.</p>
<p style="text-align:justify;">O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno <em>djembé</em> estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.<br />
Um por um, todos os da tribo se aproximaram dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.</p>
<p style="text-align:justify;">Do pequeno <em>djembé</em> elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.<br />
Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do <em>djembé</em>, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.<br />
E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.<br />
A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.<br />
Até os homens…</p>
<p style="text-align:right;">Do Spillers<br />
<em>L’arbre qui parle</em><br />
Toulouse, Milan Poche, 1999<br />
Tradução e adaptação</p>
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