Diálogo de Culturas


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Voa, Gaivota, Voa!

Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou:
— Romas!
— O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã.
— O Vilius anda à tua procura!
— Que quer ele?
— Tem uma gaivota.
— Uma gaivota? — Romas fez uma careta: a maçã estava verde.
— Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã!
— Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes.
Com a maçã na mão e depois de ter normalizado a respiração, Danute explicou:
— Sabes, quer vender-te a gaivota. Vamos!
A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Claro que Romas logo se gabara disso à rapaziada. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este meteu-lhe a moeda debaixo do nariz: é ou não verdade?
Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho?! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas… De qualquer maneira, havia de surripiar a moeda ao Romas. Mas como?
Vilius passou dois dias dando cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito.
Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado em cima de um barco virado. Os seus cálculos bateram certo: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois.
Quando Romas se aproximou, Vilius, sempre sentado em cima do barco, mostrou- lhe a gaivota e perguntou:
— Queres comprá-la?
Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo.
— Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la!
— Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer-lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos:
— Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa.
Romas tinha pena do pássaro.
— É possível curá-la? — perguntou.
— Não custa nada! Mas como é? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas.
— Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a choramingar. Também estava com pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te.
Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa.
— Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes?
— Compro!
— Então, passa para cá a moeda!
Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota.
— Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro.
Vilius pegou na moeda e deu a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa.
Depois de examinar a asa ferida, o avô disse:
— Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo.
Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena da moeda de rublo…
— Ora bem… Primeiro, vamos ligar a asa… — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas.
Quando a mãe voltou do trabalho, viu aquilo e perguntou severamente:
— O que se passa aqui?
— Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas.
— Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe.
A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um óptimo lugar para tratar da gaivota.
O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota.
— Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ficará muito bem — sugeriu.
— E quando ficar boa? — quis saber Romas.
— Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que tem sempre fome.
A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos.
No dia seguinte, já estava melhor. Um dia depois, não podendo ficar mais na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius, Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita.
Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação.
— Mostra-me lá a tua gaivota — pediu.
O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha.
— O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou esta porcaria por um rublo. Caíste como um patinho!
Romas respondeu-lhe com as palavras do avô:
— Teremos mais uma gaivota neste mundo.
— Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai ficar aqui a vida toda. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro.
Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Agora, já queria que não melhorasse tão depressa!
A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. Oxalá não se magoe mais, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, ferramenta do avô, aparelhos de pesca do pai — pensava Romas.
— Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — Que pensas?
O coração apertou-se-lhe. Estava a ponto de chorar. Mas não era um bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza.
— Não existem gaivotas domésticas. Não são a mesma coisa que galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas. — Precisam de liberdade.
Como viu que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso:
— Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias.
Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no tecto e caiu em cima das canas de pesca do pai.
A ave lançou a Romas um olhar muito, muito triste.
— Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!
Quis apanhar a ave para levá-la para a costa, mas esta não se deixava caçar.
Só o avô conseguiu, embora com grande dificuldade, agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia.
— Vamos, avô.
Chegaram à costa. Quase imediatamente, juntaram-se-lhes Giedrius, Danute e Ruta.
O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Daí a pouco, teriam mais uma companheira.
— Voa — disse o rapaz, atirando a gaivota ao ar.
A gaivota levantou voo.
Romas nem sentia que lágrimas lhe turvavam os olhos.
E não era do dinheiro que tinha pena!

Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987


Dons do Peixinho Dourado

Dons do Peixinho Dourado

Romas olhou pela janela e quase perdeu o ar ao ver no pátio um novo automóvel brilhando ao sol.
— De quem é o carro? — perguntou ao irmão mais velho, Mykolas, quando conseguiu recuperar a respiração.
— Do pai da Danute.
Que maçada! A miúda e ele tinham combinado ir nesse dia à procura de âmbar…
— Já não vamos…
— Porque não? — perguntou uma voz desconhecida.
Romas voltou-se e viu junto à porta, como se tivesse saído da terra, um homem alto e magro sorrindo-lhe.
— Porque não? Claro que vamos! — Estendeu a mão a Romas: — Bom dia. Não foste tu quem curou a minha filha com morangos?
— Fui. — Romas apertou timidamente uma mão grossa.
— Foi uma boa acção. Sou o pai da Danute.
Nesse momento, surgiu a pequena atrás dele.
— Pai! Já tomei o pequeno-almoço. Podemos ir!
— Não tenhas pressa. Romas ainda não comeu e não podemos partir.
Romas limpou num instante o prato e bebeu o leite. Momentos depois, rodavam os três pelo pinhal banhado de sol.
— Que beleza de lugar — admirou-se o pai da Danute. — Que ar! O mar ainda fica muito longe?
— Bastante — respondeu Romas, com ar importante.
De repente, um esquilo atravessou a estrada. Trepou para um pinheiro e pôs-se a observá-los com curiosidade.
— Bom dia, esquilo! — cumprimentou-o o pai de Danute. — Queres uma coisa?
E, como um ilusionista, enfiou a mão num bolso e dele tirou um punhado de avelãs, que colocou em cima de um tronco. Depois, pegou nos jovens pela mão para afastá-los um pouco.
— E para nós? — pediu Danute.
— Para vós? Está bem. — Voltou a procurar, com um ar misterioso, no bolso. — Um, dois, três! — E na mão dele surgiram rebuçados.
Enquanto saboreavam os rebuçados, o esquilo, ganhando por fim coragem, saltou para cima do tronco.
Eram tantas avelãs que o animalzinho não sabia por qual havia de começar. Sentou-se, armou a cauda ruiva e olhou-os interrogativamente.
— Bom proveito, esquilo! Adeus! — disse o pai da Danute, acenando-lhe com a mão.
— Tem cuidado com os dentes, as cascas são duras! — avisou-o a filha rindo de contente.
E continuaram o caminho.
Romas conhecia a estrada de olhos fechados. Era fácil: sempre a direito. Por fim, chegaram a uma duna, por detrás da qual se estendia uma infinita praia banhada pelo mar.
Que esquisito era o pai da Danute: cumprimentava o mar!
— Bom dia, ó mar! Hoje estás muito manso!
— Por vezes, põe-se furioso — objectou Romas.
De facto, na véspera, o mar estivera bravo: um vento violento agitara-o, encapelara-o, fizera-lhe ferver as ondas. E estas levantavam, do fundo, areia, conchas e algas, que atiravam à costa. E presas nas algas, como peixes na rede, vinham à costa pedrinhas de âmbar, resina antiga endurecida mas transparente e leve. As mais das vezes, porém, eram do tamanho de uma gota de água ou até de um grão de papoila. Mas havia-as também do tamanho de um punho! Era uma pedra transparente, amarela-
-viva como um fragmento de Sol… Após a tempestade da véspera, na praia viam-se montículos escuros de algas cheirando a iodo.
— Depressa! — gritou Danute. — Quero ser a primeira a encontrar uma! — E precipitou-se para o montículo mais próximo. Mal mexeu nas algas exclamou: — Olhai!
Na sua mão reluzia um grânulo amarelo.
— Que sorte! — sorriu o pai. — Não é assim tão fácil distingui-la.
Danute franziu as sobrancelhas: porque se riam da sua pedra?
— Ora tenta encontrar uma maior…
— É para já. Mas terei de me pôr de cócoras, para ver alguma coisa.
Quando se ajoelhou, foi a vez de Romas e Danute romperem em gargalhadas. De facto, era divertido ver um homem alto procurando algo na areia e quase a tocar-lhe com o nariz…
De repente, endireitou-se e soltou um grito tão alto que assustou uma gaivota que passava perto:
— Aqui está uma! Aqui está uma!
Romas e Danute correram para ele esperando ver um pedação de âmbar! Mas o pai tinha apenas um minúsculo grãozinho amarelado… Danute guardou-o na caixa de fósforos: se não havia maiores, serviam as pequeninas.
Momentos depois, o pai pôs-se de pé, esfregando os rins.
— Ufa, que calor. Estou cansado. E se nos deitássemos um bocado?
— Deita-te tu. Nós não estamos cansados — respondeu Danute.
— E se tomássemos banho?
— Toma tu. Nós queremos procurar âmbar.
— Bem, procurai lá. Se voltarmos de mãos a abanar, a mãe vai troçar de nós.
O pai de Danute tirou a camisa, as calças e ficou em calções de banho. Entretanto, Romas começou a mexer em mais um montículo de algas. De repente, qualquer coisa brilhou entre a verdura das plantas. Não acreditou no que via: entre vários seixos polidos pelo mar, cintilava uma pedra transparente do tamanho de uma caixa de fósforos.
— Que grande! — exclamou Danute, extasiada. — Papá, papá! Olha para isto!
— Isto sim, é uma pedra! Que rica! — disse o pai, acenando a cabeça de admiração.
Rolando o seu achado na palma da mão, Romas examinava-o de todos os lados.
— Que beleza! — suspirou com inveja Danute, e afagou ao de leve a pedra.
— Toma — disse Romas estendendo-lha.
Danute levantou os olhos para o pai, como se lhe pedisse aprovação. Romas insistiu:
— Pega! Não tenho pena, pois encontrarei outra.
— Hoje? — perguntou Danute.
— Talvez da próxima vez, mas encontrar, isso encontrarei! Pega, por favor. — E, quase à força, meteu-lhe a pedra na mão.
— Obrigada — balbuciou a petiza, sem acreditar na sua sorte.
— Sabes — disse o pai dele, em tom grave — não encontrei muitos rapazes tão bons como tu! — Deu uma palmada no ombro de Romas e correu para a água.
Quando já estava um pouco afastado, mergulhou. Demorava a vir à superfície, e Danute começou a inquietar-se. Por fim, o pai voltou à tona e nadou para a praia. Gritava qualquer coisa, mas as ondas não deixavam ouvir. Quando já estava mais próximo, as crianças ouviram-no dizer:
— Correi aqui! Apanhei um peixinho dourado! Pede que o deite ao mar.
Tinha as mãos juntas e mergulhava-as continuamente na água. Os jovens entraram a correr no mar, o pai mostrou-lhes o peixe.
— Na verdade, é dourado! — exclamou Danute.
— Então, filha, formula um desejo, depressa. O peixinho satisfará qualquer um.
— Quero uma boneca que fale. E feche os olhos — desabafou Danute.
— E tu, Romas, qual é o teu desejo mais íntimo?
O pai voltou a tirar as mãos da água e aproximou-as de um ouvido.
— Estão a ouvir? Diz que fará tudo se o soltarmos.
Romas lançou-lhe um olhar desconfiado, mas pediu timidamente:
— Talvez, uma bola… Na nossa loja há bolas assim, de borracha, vermelhas. São muito boas para jogar futebol!
— Acham que o peixinho nos vai enganar? — perguntou o pai da Danute, libertando o peixe na água.
— Não, não nos enganará! — garantiu ela, batendo com as mãos na água.
Romas, porém, não acreditava muito. Duvidava que fosse possível apanhar um peixe daqueles naquele sítio. Porque é que o pai e os outros pescadores nunca o tinham visto? Teria vindo de mares longínquos? Tinha de perguntar ao irmão Mykolas se existiam peixinhos dourados. O irmão sabia de certeza: tinha sido pescador numa traineira e apanhado toda a espécie de peixes.
Quando lhe perguntou, Mykolas respondeu, com ar sério:
— Então não há? Nunca tinhas ouvido falar disso? Um velho apanhou um peixinho dourado e este disse-lhe com voz humana: «Ó velho, deita-me ao mar!… Recompensar- te-ei cumprindo qualquer desejo teu». Portanto, se o vosso peixinho era dos verdadeiros, espera um pouco!
De manhã, mal Romas abriu os olhos, viu a mãe junto à cama, que lhe disse:
— Levanta-te! Olha o que encontrei perto da porta!
Era uma bola! Não de borracha, mas das autênticas, de couro. Nem na loja havia bolas daquelas! Só na cidade.
— Foi o peixinho, de verdade?… — sorriu, ainda desconfiado.
— Claro.
— E Danute, recebeu alguma coisa?
— Uma boneca. Que fala e fecha os olhos.
— Ora vejam!
Romas estava muito contente. Aliás, sabia quase de certeza quem lhe dera a bola, mas não queria fazer perguntas sobre isso. Que pensassem que foi o peixinho!

Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987


Morangos

Morangos

Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em meados de Junho?
Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:
— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje, enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.
Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.
Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns morangos.
— Prova. Os vermelhos já os comi.
Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:
— Posso ir convosco?
— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.
Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias. Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia- se. Era uma boa amiga. Nada que se assemelhasse à Ruta.
Depois de provar os morangos, Danute disse:
— Que doces! Bem gostaria de comer mais!
— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada — prometeu Romas.
Isto foi ontem. Hoje… Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este fugiu à resposta:
— Que morangos?!
— Vilius disse que íeis hoje…
— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!
— Mas eu prometi a Danute…
— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!
Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio. Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:
— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos. Deixa alguns para a gente! — e soltou uma gargalhada.
Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota está doente e eu falto à minha palavra!… Não tenho vergonha na cara!»
Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho, pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.
Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia. Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais dura. E tinha que andar muito…
Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho aeródromo, no lugar soalheiro…
O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.
Nesta língua de areia encravada no mar crescem amieiros e bétulas e as suas clareiras estão sempre cheias de morangos.
Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver apenas a ponta branca do rabo.
— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!
A lebre, porém, não se deteve, ou porque não o ouviu ou porque, de tão assustada, nada compreendeu.
Na clareira por trás do amial os morangos ainda não estavam maduros. Alguns estavam rosados só do lado do sol. O resto das bagas estavam ainda duras e não tinham sabor. Eram tantas, mas todas verdes.
O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de bétulas e desembocou numa outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não, primeiro, vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.
Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira… Quando encheu o cesto, cobriu os morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.
Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.
Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada. Para tranquilizá- la, o avô disse:
— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que faz nunca se perde! Então, o que trazes aí?
— Morangos.
— Não pode ser! É ainda cedo.
— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!
— Deixa ver. Que lindos!
— São para Danute!
— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.
— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.
— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse: — Tenho tanta fome!
Danute, abraçada ao cesto, disse:
— Assim que comer isto, fico boa!
Entretanto, Ignas espreitou pela janela.
— É verdade que o Romas…? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do cesto.
No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá- los para irem aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol, ninguém sabia onde se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:
— Chama o Romas!
Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:
— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.
— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivésseis procurado no sítio certo.
— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta…
— Mas eu encontrei!
Vilius piscou o olho e resmungou:
— Não sei onde os encontraste, mas o certo é que não foi na Grabchto! Não me esquecerei desta tua mentira. Percebeste?
Teria mesmo mentido? Simplesmente encontrara uma clareira batida pelo sol…

Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987


Ali, o burrinho de Sidi Mohammed

Ali, o burrinho de Sidi Mohammed

Ainda há pouco a enorme duna fulgia de vermelho mas agora, com o sol a subir cada vez mais alto, brilha amarela-dourada. Ali, o burro, mal repara que as dunas mudam de cor. Só dá conta de que o sol está a bater-lhe outra vez nas costas, cada vez mais quente, agora até demasiado! Por volta do meio-dia ia aquecer ainda mais.

Ali detesta a duna. Detesta o sol que incide nela e aumenta a luz e o calor. Só quando está deitado à sombra da palmeira durante a pausa do meio-dia é que Ali gosta do sol. Deita-se numa ilha fresca que paira numa concha de luz amarela do oásis. Vê como no começo do ano a cevada se ergue amarela-dourada entre as palmeiras e, no Verão, espreita as tâmaras na copa das palmeiras. No entanto, os intervalos de descanso numa ilha fresca acabam demasiado depressa.

Ali põe um casco à frente do outro. As suas pegadas são imediatamente preenchidas até meio pela areia que desliza. Às costas leva pendurado, à direita e à esquerda, dois cestos, dois quais vão escorrendo duas tiras amarelas-doiradas, areia que o vento arrastou para as plantas do oásis. Ali carrega essa areia de volta para o outro lado da crista da duna.

Atrás de Ali segue Sidi Mohammed. Sidi Mohammed não leva nenhum cesto mas um pau, em parte para se apoiar quando fica cansado e para espicaçar Ali, quando ele fica cansado. Como Ali detesta a duna, cansa-se com mais frequência do que seria necessário e Mohammed bate-lhe com o pau nas costas. Por volta do meio-dia, contudo, Ali fica realmente cansado. As pegadas parcialmente cobertas de areia dançam-lhe à frente dos olhos e ele detesta não só a areia e o sol como também Sidi Mohammed, que não lhe concede ainda descanso algum.

“Espera”, pensa Ali. “Espera! Um dia ainda fujo de ti! Depois carregas tu a areia às costas e bates no teu próprio traseiro quando andares devagar.”

Ali já tem três anos e é um burro adulto mas ainda não viu nada do mundo, para além das palmeiras de Sidi Mohammed e, acima delas, o céu.

Durante o intervalo do meio-dia, Ali não olha para as tâmaras maduras. Perdido nos seus pensamentos, vai arrancando umas ervas e esfrega as costas contra uma palmeira. Isto é exactamente o mesmo que o coçar da cabeça de Sidi Mohammed. “Esta noite!”, pensa Ali. “Esta noite vou fugir daqui!”

Pelo lusco-fusco, Sidi Mohammed senta-se encostado contra a cabana. Assim que o sol desaparecer atrás da orla da duna, vai ficar mais fresco. Ali anda a pastar debaixo das palmeiras. Assim que fica escuro, o dono estala a língua. Ali acorre obedientemente e desaparece no interior do tabique.

O estábulo de Ali, feito de tábuas, é ao lado da cabana de Sidi Mohammed e a porta abre para fora. Ali espera até que tudo esteja silencioso, depois levanta-se e força a cabeça pela frincha da porta. Sidi Mohammed tinha deixado a caixa de pé contra a porta. Esta cai no chão de areia. Cheio de medo, Ali espera uns momentos antes de meter o corpo pela frincha da porta. Nada, está tudo calmo!

As estrelas brilham tão claras que Ali consegue ver as pegadas na areia sem dificuldade. Não sabia que, de noite, as dunas eram tão frias. O ar também é frio. Ali está cheio de frio mas, sem os cestos, faz a subida rapidamente.

Na crista da duna volta-se mais uma vez. No fundo da duna, vê as folhas das palmeiras pretas e uma ponta da cabana de Sidi Mohammed. À frente dele, estende-se o deserto, o mundo onde Sidi Mohammed não manda.

E agora, para onde deve ir? Ali quer seguir sempre em frente, mas em que direcção?

Quando, ao fim de muito tempo, a orla do céu começa a clarear e depois o sol se levanta muito depressa, Ali ainda está a caminhar sem ter visto uma palmeira. Não consegue deixar de pensar no poço de água do oásis. Mas a água, agora, está muito longe.

Terá seguido na direcção errada? Talvez os oásis, as palmeiras, os pastos dos camelos e os poços de água sejam na direcção do pôr-do-sol. Será melhor voltar para trás? Ali não sabia que também se fica cansado e triste sem cestos de areia.

As dunas seguem-se umas atrás das outras, todas iguais, como se Sidi Mohammed estivesse a rir-se dele. De repente, Ali dá de caras com um animal sentado, imóvel, na areia. Tem uma cauda espessa, orelhas grandes e pêlo amarelo-claro.

— Quem és tu? — pergunta Ali. — Eu sou Ali, o burro de Sidi Mohammed.

O desconhecido olha-o de olhos arregalados de espanto, olhos espertos, e responde:

— Que és um burro, eu sei. Mas és um burro palerma porque não sabes que eu sou um feneco, uma raposa do deserto.

Ali está zangado mas como há horas que não encontra nenhum ser vivo, não deixa transparecer nada. Talvez o feneco possa ajudá-lo!

— O que estás aqui a fazer? — pergunta Ali.

— Ando por aqui a vaguear.

— Também andas à procura de um novo dono?

— Eu não tenho dono, sou livre!

— E quem te dá água e comida? Não vejo por aqui uma única folha de erva!

— És mais burro do que o que eu pensava! Não sabes que todos os animais livres têm de tratar de si? Sou eu que caço as minhas presas e eu mesmo procuro as nascentes de água. Dá-te por contente por eu não apreciar carne de burro!

— Eu não caço. Prefiro pasto de camelo! — explica Ali gravemente. — Erva é o melhor que podes imaginar! Água dá-me o novo dono que vou procurar.

— Aqui não há dono nenhum! — disse a raposa. — Nem erva nem água. Só areia!

— Onde é que há água?

— Isso depende. Se seguires em direcção ao nascer do sol, tens ainda um dia e uma noite pela frente. Se fores em direcção ao pôr-do-sol, tens meio dia e chegas a um oásis com erva suculenta e água doce. Era o melhor para ti.

— Para aí não quero ir! — atalha Ali rapidamente. — Até hoje andei lá a carregar areia às costas até à crista da duna! Já estou farto, quero ser livre como tu!

— Livre? Então também tens de ser tão rápido como eu e igualmente corajoso. Não podes ter medo da sede nem da fome, o calor e o frio não podem incomodar-te. Tens de amar o vento e a areia, tens de evitar os oásis para não seres apanhado pelos homens. E, além disso, precisas de um pêlo diferente. Os animais livres têm um pêlo amarelo cor-de-areia como sinal de adorarem o deserto, mas tu tens um pêlo parecido com pó de argila.

Ali fica abatido. Não tinha imaginado que a vida em liberdade fosse tão difícil.

— Queres ser o meu dono — perguntou após uma longa pausa — queres mostrar-me como posso tornar-me livre?

— Não quero contrariar-te — respondeu a raposa — mas acho que foste criado para o oásis. Quem nasceu para o deserto sabe sempre o que quer. Tu tens muitas perguntas. No teu lugar, eu regressaria para Sidi Mohammed. Eu tornar-me-ia útil para que ele gostasse que eu morasse no oásis dele.

— Eu sou muito útil! — explicou Ali com orgulho. — Sem mim, o oásis há muito que estaria enterrado na areia e não haveria mais tâmaras doces. Sidi Mohammed vai ficar triste por eu ter fugido.

— E que mais queres? Não é belo transformar a tristeza em alegria? Volta para trás, eu acompanho-te. Tu agradas-me muito, embora sejas um burrito.

E foi assim que o burro e a raposa se puseram a caminho de poente, um com o pé leve, o outro com o coração pesado… pois Ali vai a pensar no pau de Sidi Mohammed.

Mas como Alá também ama os animais, enviou um sonho a Sidi Mohammed. Este carrega uma jeira de madeira sobre os ombros de onde pendem, à direita e à esquerda, um cesto de areia. Devagar, um pé à frente do outro, Sidi avança, ofegante, pela duna acima. O calor do dia é quase tão pesado como a areia que leva às costas. Atrás dele segue Ali. De cada vez que Ali se impacienta, bate com o focinho nas costas de Sidi Mohammed de tal maneira que o pobre quase cai para a frente. Sidi Mohammed acorda completamente destroçado.

Quando, pela manhã descobre que Ali fugiu, não fica furioso mas triste. Triste consigo mesmo porque, sem a ajuda de Ali, o bonito oásis ficará soterrado na areia. Sidi Mohammed não tem um camelo e, a pé, não pode ir buscar o burro. Só pode esperar que Ali volte de livre vontade.

O sol já está a pôr-se quando os dois amigos tão diferentes chegam ao seu destino.

— Adeus! — diz a raposa. — Não posso acompanhar-te mais longe. Estive a pensar em ti. Não é vergonha nenhuma trabalhar no oásis. Quem trabalha é útil e, ao mesmo tempo, valente como os animais livres. Se quiseres, podemos ficar amigos!

— Adeus! — diz Ali, a pensar novamente no pau de Sidi Mohammed.

A raposa vai embora. As patas calcam a areia como uma fiada de pérolas.

Ali inicia a descida até ao fundo do oásis, muito lentamente. Quando chega às palmeiras, já é está quase escuro. Sidi Mohammed está sentado encostado à cabana. Levanta-se de um salto. “O pau!” pensa Ali, muito assustado. “Ele vai buscar o pau à cabana!” mas Sidi Mohammed não vai buscar o pau. Em vez disso, corre ao encontro de Ali e coça-lhe a cabeça atrás da orelha.

— Seu desertor! — diz ele. — Ainda bem que voltaste!

Ali, de pé, está muito quieto e sente-se o mais feliz dos burros. E antes de correr para o poço para finalmente voltar a beber, esfrega a cabeça, agradecido, na túnica de Sidi Mohammed.

Hannelore Bürstmayr
Grün wie die Regenzeit
Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986
Tradução e adaptação


O dragão azul e o dragão amarelo

O dragão azul e o dragão amarelo

No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez se vira.

Convocou o pintor mais célebre do império que vivia numa gruta longe da cidade.

O artista dirigiu-se imediatamente à corte e o imperador deu-lhe a conhecer o seu propósito: no biombo da sala do trono deviam figurar dois dragões, um azul e outro amarelo, para simbolizarem o poder do Império e a paz que tinha caracterizado o seu tempo de reinado. O pintor fez uma vénia e respondeu que pintaria dois dragões em seda preta, mas com uma condição: para o biombo ser tão belo como era vontade do imperador, precisava de um tecido de seda, mas a seda teria de ser mais fina do que todas as sedas alguma vez tecidas.

— Vou retirar-me para a minha gruta — acrescentou o pintor — até que a seda seja tecida; assim terei tempo de me preparar para fazer a pintura dos dragões.

Em seguida, o pintor abandonou a corte e regressou à sua gruta, começando logo a trabalhar.

O imperador ordenou que começassem imediatamente a fabricar a mais fina das sedas que alguma se vira.

Mas o fabrico foi muito mais difícil do que o imperador imaginara.

Primeiro, foi preciso escolher meticulosamente os bichos-da-seda, porque os que até então tinham sido criados não podiam secretar uma seda assim tão fina como a que o pintor pedira.

Os bichos-da-seda, tão cuidadosamente escolhidos, exigiam uma alimentação particularmente delicada, e as folhas da amoreira com que eram alimentados deviam ser seleccionadas com o máximo cuidado.

Apesar de todas as precauções, apenas alguns dos casulos sobreviveram.

Muito tempo decorreu até se conseguir um número suficiente de casulos para obter a quantidade de seda necessária para o biombo do imperador.

Mas, naquele momento, surgiu uma nova dificuldade: a seda era tão fina, que muito poucos tecelões se mostravam capazes de a tecer. Foi preciso apelar aos melhores artesãos do império.

Por fim, ultrapassou-se esta dificuldade e a seda destinada ao biombo acabou por ser tecida. Não havia memória de uma seda tão fina. O imperador ordenou que fosse pregada numa moldura de marfim.

Concluído o trabalho, o imperador enviou um mensageiro avisar o pintor de que a seda estava tecida e de que devia sem demora pintar os dragões.

O pintor pediu ao mensageiro que dissesse ao imperador que ainda não tinha acabado de preparar o seu trabalho e pedia-lhe que esperasse.

O imperador, que já tinha esperado muito tempo até ser tecida a seda, não escondeu a sua decepção, mas lá acabou por compreender que o pintor queria preparar uma obra-prima, e esperou. Contudo, sempre que passava diante do biombo, perdia a paciência.

Um dia, não aguentando mais, enviou um mensageiro para lembrar ao pintor a sua promessa. Este mandou dizer que, para aceder ao pedido do imperador, ainda não seria capaz de pintar dragões dignos do mais belo biombo algum dia visto. Precisava, dizia ele, de continuar com os seus ensaios e pediu um novo prazo.

O imperador, apesar da impaciência, não teve outro remédio senão esperar. Mas o tempo ia passando e o pintor não dava sinais de vida. E, sempre que o imperador passava diante do biombo inacabado, sentia crescer a sua irritação.

Um dia, no limite da paciência, enviou um mensageiro, ordenando-lhe que trouxesse o pintor à corte, a bem ou a mal.

O pintor aceitou finalmente acompanhar o mensageiro.

Quando chegou diante do imperador, disse-lhe que já se sentia capaz de pintar os dragões. O imperador manifestou a sua alegria.

O artista mandou que lhe trouxessem tinta amarela, tinta azul e dois grandes pincéis, e aproximou-se do biombo.

De uma pincelada, fez um traço amarelo; depois, outra pincelada, e fez um traço azul.

Em seguida, pousou os pincéis e declarou que o trabalho estava concluído.

Mal soube da notícia, o imperador, feliz por pensar que o mais belo biombo alguma vez visto iria finalmente ornamentar a sala do trono, precipitou-se para admirar a obra de tão célebre pintor.

Quando chegou diante do biombo, nem acreditava no que os seus olhos viam: apenas dois traços grossos, um azul e outro amarelo.

Convencido de que o pintor tinha querido troçar dele, ficou furioso. Com toda a calma e um ar muito sério, o pintor disse que aqueles dois traços eram fruto de longos estudos levados a cabo durante anos e anos.

Em seguida, fez uma vénia e quis retirar-se. Mas o imperador, fora de si e sempre convicto de que o pintor fizera uma brincadeira de mau gosto, que tinha estragado irremediavelmente a maravilhosa seda cujo fabrico levara tanto tempo e tinha exigido tanto cuidado, mandou prendê-lo.

O imperador estava de tal modo encolerizado, que não pregou olho naquela noite. Na escuridão, os dois traços, o azul e o amarelo, passavam e voltavam a passar diante dos seus olhos. Quando fechava as pálpebras, iam e vinham e pareciam ganhar dimensão e mover-se. Para seu grande espanto, aqueles dois traços transformavam-se em dragões a lutar. E os dragões eram rápidos e possantes. O que mais o surpreendeu, é que pareciam ter vida e mover-se, eram leves e fortes ao mesmo tempo, e aquela força, aquele poder e aquela grandeza e leveza estavam resumidas nos dois traços que o pintor tinha traçado na maravilhosa seda.

Depois de uma noite em branco e de ter admirado os dois dragões que o pintor simbolizara, o imperador decidiu ir descobrir o segredo do artista que tinha conseguido uma tal obra-prima.

De madrugada, mandou selar o cavalo e, acompanhado pela sua guarda de honra, partiu em direcção à gruta onde o pintor trabalhara muitos anos antes de pintar os dois dragões no biombo.

A tempestade dificultou-lhes o caminho; a neve, o vento e o nevoeiro obrigaram-nos a voltar atrás. Mesmo assim, o imperador ordenou que se fizessem de novo ao caminho. Ao fim de vários dias e noites de viagem, chegaram à gruta do pintor. Acenderam as tochas. Ao entrar, o imperador viu dois dragões pintados nas paredes: um era azul e o outro amarelo.

Estavam desenhados com a maior exactidão, distinguia-se cada escama, cada dente, e as narinas lançavam fogo. Cada pormenor era azul e amarelo.

Por baixo da pintura estava uma data: a do dia em que o imperador tinha pedido ao pintor para começar a pintar o mais belo biombo alguma vez visto.

Ao lado desta pintura, uma outra, a de dois dragões, um azul e outro amarelo. Ao lado desta segunda pintura, uma terceira, depois uma quarta, uma quinta, uma sexta…

Todas as paredes da gruta estavam cobertas de pinturas que representavam dois dragões, um azul, outro amarelo. Todas as imagens estavam datadas, ano após ano.

À luz das tochas, o imperador não conseguia despregar os olhos do trabalho árduo do pintor.

As imagens sucediam-se às imagens, os esboços aos esboços.

Mês após mês, o pintor ia simplificando a pintura dos dois dragões, um azul e outro amarelo. Depois de uma longa sequência de dragões, o pintor traçara finalmente nas paredes da gruta os dois traços, um azul, outro amarelo, que pintara no biombo.

Naquelas duas últimas imagens estava resumida toda a potência dos inúmeros dragões que o pintor desenhara durante muitos anos nas paredes da gruta.

O imperador reconheceu os dois dragões do biombo e deu-se conta de que as duas últimas imagens não podiam de modo nenhum comparar-se às que as precediam.

Ao olhar para as pinturas, o imperador começou por ficar admirado, depois foi ficando cada vez mais alegre, até sentir, no final, um imenso júbilo.

Depois de ter observado por uma última vez os dois traços azul e amarelo, deu ordem imediata de selar os cavalos, pois queria regressar à capital. Tinha pressa de mandar libertar o pintor para o honrar e lhe agradecer, porque este lhe tinha permitido compreender o poder e o significado dos dois traços, um azul, outro amarelo, que simbolizavam os dois dragões.

O pintor foi posto em liberdade e o imperador mandou colocar o biombo dos dois dragões na sala do trono.

Ré e Philippe Soupault
Dragon bleu — Dragon jaune
Paris, Père Castor Flamarion, 1995
Texto traduzido e adaptado


Leïla

Leïla

Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-lhe Leïla – a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não sabe como acalmar a natureza selvagem da filha.
Leïla tem seis irmãos. Slimane é o mais velho. É o filho preferido do xeque Tarik. Só ele sabe como acalmar Leïla quando ela se irrita, quando se exalta. Só ele a faz rir quando está sombria e triste. Todos os dias, Leïla acompanha Slimane através do oásis.
Certa manhã, quando as últimas estrelas se extinguiram, Slimane deixou o acampamento. Montou o cavalo do xeque Tarik e atravessou o deserto, procurando novas pastagens. Lá do alto de uma duna, Leïla e o pai acenam a Slimane que se afasta.
Os dias passam e Slimane não regressa.
Tarik parte à procura do filho. Avança de duna em duna, de oásis em oásis. Leïla acompanha-o.
Os pastores dizem-lhes que viram o cavalo branco, no horizonte, mas que este não levava cavaleiro algum.
Os mercadores, com os seus camelos carregados de mercadoria, falam dos grandes espaços que atravessaram. Dizem a Tarik:
— Só Alá sabe onde se encontra o seu filho.
Então, Tarik compreende que o filho foi engolido pelas areias, como já acontecera a tantos Beduínos.
Tarik diz a Leïla que não voltará a ver Slimane. Leïla chora e grita. Ninguém pode levar-lhe o seu irmão, nem mesmo Alá! Por fim, Tarik consegue acalmá-la. Regressam, vagarosamente, ao acampamento. Tarik fica em silêncio. Durante vários dias, permanece sentado na entrada da tenda, não tocando sequer nas deliciosas refeições que lhe oferecem os seus servidores.
Leïla vagueia pelo oásis, como cega.
Ao fim de sete dias, Tarik sai da tenda. Junta o seu povo e diz-lhe:
— A partir de hoje, qualquer um de vós que pronuncie o nome de Slimane, será severamente punido. Quero esquecer.
O seu olhar era duro e frio. Todos os Beduínos baixaram a cabeça. Sentiam-se mal, mas ninguém ousou falar.
Leïla também ouviu a decisão de Tarik. Mas, apesar disso, todos os dias algo lhe fala de Slimane. Quando vê as crianças a brincar, lembra-se dos jogos que Slimane lhe ensinava. Quando passa pelas mulheres, recorda as histórias que lhes contava Slimane. Ao encontrar os pastores guardando os seus rebanhos, pensa no pequeno cabritinho negro que o irmão adorava.
Em cada recordação, Leïla quer gritar o nome de Slimane.
Mas cala-se. Cada vez se torna mais selvagem e mais violenta. Os Beduínos afastam-se quando ela passa. Sente-se mais só do que nunca.
Um dia, Leïla vê os irmãos fazerem um jogo que Slimane lhes ensinara. Então, sem pensar, diz-lhes:
— Slimane não jogava assim.
Os irmãos detiveram-se de imediato, olhando-a com um ar assustado. Ela tinha rompido o silêncio.
Leïla vai visitar as mulheres à tenda e começa a contar-lhes uma história – uma daquelas que Slimane contava. A mãe de Leïla protestou, angustiada:
— Pára, Leïla, se o teu pai ouve…
Pouco a pouco, as mulheres foram-se calando para ouvir, sorrindo e de ar sonhador, a história de Leïla. Mas esta apercebe-se do ar inquieto da mãe. Queria fazer-lhe compreender… Mas só conseguiu gritar:
— Tenho de falar dele, tenho!
E sai, correndo.
Leïla vai juntar-se aos pastores da montanha que, ao ouvirem o nome interdito, fogem. Mas Leïla vai atrás deles.
Conta-lhes o amor que o irmão sentia pelo pequeno cabrito negro. Pouco a pouco, os pastores aproximam-se dela. Quanto mais Leïla fala de Slimane, mais ele lhe parece próximo e presente. Agora sente-se em paz. Em breve todos a ouvem, sorrindo. Era como se Slimane vivesse de novo entre eles.
Certa noite, um dos pastores mais jovens aproxima-se da tenda de Leïla. Chama-a:
— Anda, vem ver como o cabrito de Slimane cresceu.
Abre-se o pano da tenda e é Tarik que aparece. O seu olhar é mais gelado do que a aurora do deserto. As suas palavras ferem como o sabre cruel.
— Pastor, proibi que pronunciassem o nome do meu filho. Mas desobedeceste. Expulso-te deste oásis. Não voltes mais.
O pastor afasta-se, chorando. Os Beduínos baixam os olhos em silêncio. Estão infelizes. Têm medo. Afastam-se de Leïla, deitando-lhe um olhar de reprovação.
Leïla queria gritar: “Slimane!”, mas guarda para si as palavras que lhe afloram aos lábios. Sente que a raiva aumenta. Sufoca. A sua paz é destruída. Parece que Slimane se voltou a afastar.
Na manhã seguinte, muito cedo, Leïla decide falar com o pai. Tarik está sentado na tenda, pensativo. Leïla aparece bruscamente à sua frente. Fala em voz baixa e reprimida:
— Não irá roubar-me o meu irmão. Não deixarei que o faça…
Tarik lança-lhe um olhar ameaçador e Leila não lhe dá tempo para falar, continua:
— Consegue ver o rosto de Slimane? Ouve a sua voz?
Tarik fica petrificado de espanto. Diz, tremendo:
— Não, não consigo. Apesar disso, fico horas e horas no deserto.
Os olhos de Tarik enchem-se de lágrimas. Leïla diz-lhe docemente:
— Sei de uma maneira, pai, ouça…
Então Leïla começa a falar de Slimane. Como ele passeava com ela e o que falava; como brincava e o que contava. Como a acalmava ou a fazia rir quando ela se irritava. Fala-lhe de alegria, de ternura e de vida… Quando acaba, diz:
— Pai, já consegue ver-lhe o rosto? Ouve agora a sua voz?
Tarik baixa a cabeça e, pela primeira vez desde há algum tempo, sorri.
— Está a ver — murmura Leïla — Slimane pode ainda viver entre nós.
Tarik fica sonhador, por algum tempo. Depois, volta-se para Leïla:
— Diz ao meu povo que venha juntar-se aqui.
Quando os Beduínos se reúnem em volta de Tarik, este declara:
— A minha filha Leïla soube trazer-me de volta o meu filho Slimane. Por isso, daqui em diante, chamar-lhe-eis Leïla — a mais sábia. Quero que o seu nome e o de Slimane sejam honrados em todos os acampamentos do deserto.
Dias mais tarde, o jovem pastor regressou ao oásis.
E Slimane viveu de novo no coração de todos aqueles que dele se recordavam.

Sue Alexander
Leïla
Porto, Edinter, 1989


A menina do ovo de avestruz

A menina do ovo de avestruz

Seetetelane era um rapaz pobre. Não tinha terra, nem vaca, nem mulher. Vivia só, na savana. Caçava arganazes para comer. Das pequenas peles fazia a roupa.
Um dia, andava ele à caça de arganazes, quando encontrou um ovo de avestruz, o maior que já alguma vez vira.
— Que sorte! — exclamou Seetetelane. — Até que enfim a sorte chega a alguém tão pobre como eu! Vou levar o ovo para a minha palhota. Vai ficar lá abrigado até vir a época das chuvas.
Arrastou o ovo até à sua palhota e, pelo caminho, ia pedindo que a sorte o não abandonasse e o fizesse feliz.
— Espero bem — exclamava. — Espero que a sorte fique comigo!
Guardou o ovo debaixo do telhado de palha e voltou à caça de arganazes.
Quando regressou muito tarde, viu, para surpresa sua, que a palhota estava arrumada. Em cima da mesa estava um pão acabado de cozer e, ao lado, um jarro com cerveja também fresca.
— Como é possível? — exclamou Seetetelane. — Até parece que passou por aqui alguma mulher! Como nos meus sonhos mais lindos!
Mas, como estava com fome, não pensou mais nisso. Comeu, bebeu, e ficou satisfeito.
No segundo e terceiro dia, aconteceu o mesmo: quando Seetetelane regressava à noite, parecia que uma mulher tinha arranjado tudo com amor. No quarto dia, ao sair para a caça, Seetetelane esqueceu-se do cachimbo na palhota. Voltou atrás e reparou que estava alguém dentro da sua palhota.
Aproximou-se devagar e pôs-se à espreita. Uma rapariga desconhecida, bonita, arrumava a casa, enchia o jarro de cerveja e punha pão fresco no cesto. Quando tudo estava já em ordem, a rapariga ia enfiar-se no ovo de avestruz.
— Não! — gritou Seetetelane e segurou-a pela mão. — Fica aqui! Fica comigo!
Respondeu-lhe a rapariga:
— Tiveste tanta esperança e desejaste tanto, que a sorte veio ter contigo. Fico de boa vontade. Mas nunca poderás censurar-me por ser uma rapariga simples, saída de um ovo de avestruz!
Seetetelane prometeu.
Viveram felizes um com o outro.
Certo dia, Seetetelane disse:
— É bom estar contigo. Mas tenho saudade de estar com outras pessoas com quem possa falar, comer, festejar.
A rapariga pegou num malho, saiu de casa e começou a bater num monte de erva à porta da palhota. Do tufo de erva começaram a sair pessoas, velhos e novos, vacas que mugiam, cães que ladravam.
Seetetelane ao ouvir aquele barulho, saiu da palhota a correr.
— Agora já não tens motivo para te sentires só — disse-lhe a rapariga.
As pessoas saídas do tufo de erva rodeavam Seetetelane.
— Prosperidade e saúde, chefe! — exclamavam eles. Os cães abanavam as caudas.
Seetetelane era agora o chefe da tribo. Já não usava roupas feitas com pele de arganaz mas sim de pêlo macio de chacal, e dormia numa bela esteira. Tinha o suficiente para comer e beber, e tinha pessoas que trabalhavam para ele. Estava muito satisfeito com a vida.
Uma noite, Seetetelane tinha acabado de esvaziar o jarro da cerveja. Levantou-se para chamar a rapariga mas não a viu. Então zangou-se e gritou:
— Onde é que te meteste, rapariga do ovo de avestruz?
A rapariga apareceu e olhou com ar triste para Setetelane.
— Já te esqueceste do que tinhas prometido, Seetetelane?
— Ora… — respondeu ele. Esvaziou a caneca e adormeceu.
No dia seguinte, quando acordou, nem queria acreditar no que os seus olhos viam: estava deitado na sua antiga esteira, com a roupa velha de pêlo de arganaz. O jarro com cerveja, os copos bonitos, o pão, as iguarias, tudo tinha desaparecido.
A rapariga também tinha desaparecido e, com ela, o ovo de avestruz, de onde tinha saído. O vento soprava na erva, em frente da palhota. As pessoas todas, as vacas e os cães que a rapariga lhe tinha oferecido, tinham desaparecido.
Seetetelane levantou-se, triste, e foi procurar o ovo de avestruz. Mas, por mais que procurasse, nunca mais o encontrou.

Wilhelm Meissel

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

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